Escritas

DELÍRIO FLOREADO SOBRE O TEMPO - ODE À CLIO

viniciusfilo

Delírio floreado sobre o tempo.

Canto I

É-me possível sonhar durante a insônia
E transpor as pontes, quiçá, foram construídas
Tal como peregrino astuto de odisseias e ilíadas
A perambular entre eunucos pelos portos da Jônia

Passo por alexandrias de Tolentino
E desato a percorrer romas e atenas
E vou desbravando as ruelas do destino
Cheias de concubinas, meretrizes e mescenas.

Banho-me no sol de vento, que ao relento
Jorra do alto, chovendo e emanando luz
Durmo nos trigais dourados dos campos plenos
Sorvendo o sangue de Baco, o milagre vínico de Jesus.

A aura que envolve este sonho febril
É tão forte e colorida, tanto que,
Parece o brilho do próprio sol, se
Refletido em cristal numa tarde de Abril

Vejo, daqui, Sócrates, solene, carcomido pela cicuta
Moral e sólido até o último ato da ópera
Pelos cantos, fanhos, arrotam os rotos birutas
Os olhos farfalham, os canalhas gargalham, hipócritas.

Zaratustra já velho e só, falando sozinho, sábio
O sol dourando-lhe as rugas do corpo que esvai
Estreito, cambaleante, demasiadamente magro
Todavia, eis que ele se levanta enquanto cai.

Em Creta não se fala senão que
Poderá haver invasão dos miscênios
E que isto, nos próximos milênios
Será História, Academia, Livro que se lê.

O ar, saturado de pó de canela e tabaco
As rosas vibrando enquanto o chão estremece
As centúrias marcham sobre o charco
E no franco solo dominarão Malbec.

Em Venorona, Montechinos e Capuletos
Fazem o mesmo que os unos e os romanos
Escudos, gritos, lanças, espadas e amuletos
Os sonhos difusos, africanos, confusos, urrando

E sonho a Hélade aristotélica
O império Inca, os mitos germânicos, alvas túnicas
Fantasmas que bailam em danças estéricas
Santas, suas contas e suas súplicas

Passo pela China antiga e sua astrologia
Pelos dragões da chuva, pelas liras, por castelos
Ouço o abrir das rosas tão forte quanto durante o dia
Ouvira com poesia as batidas de um martelo.

Vejo, do céu, uma única gota de chuva desabar
Desce veloz como míssil órfão e preciso
Não sei se é lágrima de choro ou sorriso
Mas no centímetro de chão que cair, a vida renascerá.

Canto II

Seremos os guerreiros de Esparta
Generais, ou os que lutaram contra os mouros
Com elmos, até os de Avalon, de espadas
Ou de sandálias, os romanos com seus louros.

Ao som da harpa brindaremos, e violino e flauta
Tocaremos pelos campos, ao fundo, o fole escocês
Atirar-se-ão todos nas fontes e depois nas saunas
E dormirão um sono profundo, imundo, de embriaguês.

Fontes inesgotáveis de pedras ametistas
Sândalo e gérberas, nenúfares nos rios
Como no qual João, o Batista
Banhou o nazareno entre tantos meninos.

Enquanto pela manhã passeava por um Nilo ou Danúbio
Ou qualquer grande rio, não me lembro ao certo
Reparei num louco ao longe, lutando contra o castelo
Já lutara contra moinhos, havia sua loucura em dilúvio.

Vestia-se com tampas de panelas de argila
Aos passos errantes, em frases de delírio
Pensei avistar o cavaleiro de Cervantes
E isto, eu cá, à beira do Tejo e seu beijo de rio.

Quando repentinamente emergindo em minha vista
Vi os deuses do olimpo ressuscitados e os titãs
Afrodite e Zeus bailavam em raios pela pista
De fogo, de onde cantavam doze loucas fadas anãs.

Seria o ópio? Mas não era óbvio? Cogumelos?
Ou vapores de transe, tal qual os do Óraculo de Delfos?

E ao lado disso tudo, surdo, e mudo e cego e só
Uma semi estátua de coisa alguma, uma quase nada
Não sei se de sal, tal qual a mulher de Ló,
Ou se sábio como Jó, ou se louca, salamandra irada

Bem ali, parado, o vulto espectral da possível pedra
Boquiaberta, entorpecida, sentada em lótus
Talvez fosse o tétrico espírito da métrica
Que sendo eu Velásquez, com pincel tirava-lhe foto.

E atrás de mim, para imenso e justo espanto
Flutuava em jardim suspenso, babilônico
E tanto era, também, o meu encanto
Ante tal sonho amoníaco e messiânico

Que, como Werther, antes de adormecer no bosque
Ponte que como a Fausto, levar-me-ia por tantas cenas
Embebedara-me no lusco-fusco de lambruscos, e torpe
Sonhei loucuras, fantasias e sandices, apenas.

Lá, no tal sonho, do tal rio de qual estátua
O caveleiro errante permanecia lutando, a vassoura à mão
Minha cabeça rodopiava indecisa: ora leve como uma pluma
Densa como uma bruma, ora pesada como um brasão.

Aos poucos fui voltando a mim
Ou ao menos a ideia de mim que tenho eu
Pois quem saberá depois de tudo enfim
Se tal ideia de mim, contém de fato o que é meu?

Canto III

Observei, refletido, disforme no lago
Uma imagem febril, que ao que me parece
Poderia ser tanto como a de Mérlim, um mago
Ou de um magro alucinado de Dostoievsky.

Trazia na feição litros inexatos de dor
Tanto e qual um santo de Caravaggio
De uma dor sublime, bonita, dor de amor
Larga e profunda como a dor de um velho sábio.

Fitava-me com seus olhos de mistério
E falava línguas estranhas, esquecidas, proibidas.
Segurava nas mãos um globo preso em cetro
E nos pés calçava a saudosa Alexandria.

Trazia no manto, todo espanto e toda glória
E do meu sonho ofegantemente acordei
Quando ouvi bradar como um Rei
- Boa noite! Chamo-me História!

Então, ali, naquele algo insondável, no Ser História
Vi que seus olhos eram celtas, suas mãos foram Napoleão.
Seus pés César, seu sorriso fora Tróia
E no seu peito batia Ricardo, um coração de leão.

A Sistina sua alma, a Nona de Beethoven sua voz
Em tropel orbitavam-na ciências, artes e letras
Em suas mãos, sangue, pólvora, baionetas, e de sua Foz
Jorravam Estados, vilas, continentes e Igrejas.

A História fitou-me fundo nos olhos meus
E mais sobre ela compreendi que não poderia saber
Pois sobre o futuro, senão Deus
Quem saberá o quanto ainda há por acontecer?

Seria o ópio? Mas não era óbvio? Cogumelos?
Ou vapores de transe, tal qual os do Óraculo de Delfos?