Escritas

Flor de asfalto

luzmelo

Hoje eu vi uma flor esquecida no chão

a cada minuto dezenas de pessoas passavam por ela

sem ao menos notar sua existência

alguns pisavam em cima

outros a chutavam para o lado

e ela ia se moldando ao chão

conforme a dança dos passos apressados

não dava mais pra saber a sua cor

estava manchada e despedaçada

ninguém sabia mais o seu cheiro

ela agora tinha o fedor da calçada

atravessei a rua e peguei a pequena flor na mão

desfigurada

não sabia mais quem era

perguntei como se chamava

e ela disse que não lembrava

questionei como era possível ela ter esquecido o próprio nome

e ela me respondeu:

quando uma flor não tem mais cheiro e nem cor ela ainda pode ser chamada de flor?

eu disse que sim

por que eu já tinha sido flor um dia

tão vermelha quanto sangue

e com o mais fascinante dos perfumes

até que um dia fui arrancada do meu caule

e sem pena

jogada no mar

boiei por semanas

e me afoguei por um longo tempo

conheci as profundezas mais escuras de todo oceano

não sabia de outra cor e outro cheiro sem ser o do desconhecido

não sentia mais o que era ar

e nem sol

até que fui encontrada no fundo da areia

quase morta

mas assim que me tiraram dali e me botaram na luz

me chamaram pelo nome que tenho

flor da água

eu não era a mesma flor de antes, sem dúvida

nem mesmo sabia se era uma espécie de flor existente

mas sabia o que tinha me tornado

eu era exatamente o que o tempo tinha feito de mim

e assim como você

fui uma flor esquecida

que se perdeu nesse mundo

e não sabe seu lugar

mas não deixamos de ser flores

somente nos tornamos tão diferentes

que não temos pra onde voltar.