Escritas

O Vento

monteiro_damaceno
Sentado no pé da escadaria
Escuto o vento passar
Assobiar em meus ouvidos
Contos que não consigo entender

A vida da lavandeira
Estendendo sua roupa na varanda
Escarnando suas últiams dores do outro dia
Como se o vento fosse seu doutor

A vida do amante
Sonhando com a noite anterior
Dos beijos macios que deu nos seios da amada
Mas ela é de outro homem....
Ele não disse nada,
Só tragou o cigarro e expeliu a fumaça
E na fumaça,diziam todos os seus belos sonhos
-Todos com o nome dela

A vida do rapaz
Que acabara de perder a mãe
Berra igual sua estreia
Quando dormia nos colos dela.
Não se aguenta de pé um único momento,
E irancudo, condena o ar
Derrubando em suas costas
Todos os palavrões do mundo.
Mais tarde,ele volta chorar,
Mas chora fino
-Nem mesmo o vento consegue ouvir.

A vida da dançarina
Na cama do bordel
Do lado do cliente
Suspirando amores d'outras vidas
Vidas que não aconteceram.
Olha para o teto escuro e sujo
E não exerga teto algum
Só um amanhã brihante e glorioso
Como se o brodel não estivesse ali.
Como se nunca tivesse chorado no parapeito da janela
Por um raio de sol mais bonito do que aquilo.

A vida do pobre cão
Que late de fome
Na frente da padaria
Todo fraco e raquítico
-Se tivesse crença, teria rezado a noite inteira
Por um calor em sua barriga
E por um chão mais confortável.

E o vento me conta tudo.....
Mas eu não entendo nada.
Só imagino vidas deitadas no ar
Só escuto sons sem palavras
-As palavras coloco eu.
Se ele quiser mais histórias, procure outrem
Que eu mesmo nunca tive vida
Só sentado aqui
No pé da escada.

Quando ele se vai, vejo que somos tão parecidos
Vivemos vidas alheias
Sem sentir
Ou ver
Ou ouvir
Mas todos passam por nós
E nunca nos veem.
Mas eu nunca serei imortal como você
Sou apenas mais um conto incompleto.