Escritas

Um abandono em outro abandono

Laércio Jose Pereira
Enquanto a moça caminhava pelos corredores da exposição, parava, observava quase sem fazer comentários. Eu que já tinha visto todas as obras expostas tantas vezes, aproveitava para assistir a ela, que é quase tão difícil de entender quanto é difícil de se ver Rodin e Camille Claudel em Belo Horizonte.
Às vezes, ela quietava paralisada próxima a uma escultura, isso era para mim como ver duas obras de arte, sem conflitos, só emoção. Noutras vezes, arriscava um comentário, nunca pretensioso, e quando me perguntou algo, me esforcei para ser útil.
Eu, que não sou entendedor de artes - gosto mais da história que circunda as criações de Camille e seu mestre-amante do que entendo as obras deles propriamente - e se tantas vezes fui à exposição, e vi o filme, e pesquisei na internet, foi para entender o efeito da paixão nas suas criações. Confesso que me emocionei todas as vezes que visitei A sombra de Rodin.
A obra de arte que mais me emociona é O abandono de Camille Claudel. Esta escultura tem beleza, alma, espiritualidade, precisão técnica, e seus reflexos e sombras, dependendo da hora, da iluminação e do estado de espírito do observador, dão uma leitura diferente a cada nova visita. Isso é arte! Há nela um abandono de entrega, de resignação, mas de deleite, só possíveis para quem viveu o que a autora viveu.
A moça que circulava pelos corredores da alma de Camille, na exposição do Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte, me fez delirar uns delírios possíveis da artista. Eis aqui os meus:


Nos corredores do Abandono de Camille Claudel

Tento esculpir um mundo novo onde tu não alcances.
Com o cinzel da paixão ruída, mutilada e sem chances,
Vou livrando das minhas pedras as sensações dos teus toques inefáveis,
Desconstruindo o meu abandono em ti, abandono-me.

Tua voz de dono, silente agora, no subconsciente da pedra mora... impalpável.
O teu olhar que me despia outrora são meus olhares concretos hoje, sem retinas, sem cristalinos, Reconstruo-te como tu és.
Lavro! Vaso! Arranco os teus olhos de dentro de mim aos gritos de miserável.

Teu tino do amor é do cerne da rocha, não se alcança, não dá para arranhar.
Ah! As tuas peles reflexivas eram como oxigênio, oxidaram minhas luzes do real...
Tento esculpir um mundo no vácuo, retiro o ar, retiro as peles,
Desbasto a lucidez do óbvio para revelar a rudeza de dentro de mim.

E retiro de mim as cores...
E arranco as flores... não há de amanhecer em flores,
Nunca mais deve haver primaveras, somente dores.
Preencho o meu abandono com a pausa da tua dança.
Preencho de sanha o meu mundo ideal.
E às canhas rasuro o riso e o mel,
Da paixão domo o pouco siso,
E os nossos tantos gritos lascivos...
Estes serão para sempre o âmago para mim.

Tu me ensinaste a criar corpos e músculos e pomos,
Dôo minha alma como alma para os corpos que agora crio em abandono.

Abandonei-me em ti...
Abandono-me de mim.

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