Adélia
Eu sei que ela leria um livro em qualquer lugar. Afinal ela sempre ouvia uma doce música vinda das páginas quando as abria. Um toque sublime e imaginário de piano e nostalgia...delícia. Aliás nunca se soube ao certo quem abria quem ou o quê. Às vezes se tinha a nítida impressão de que os livros é que abriam Adélia e a viravam do avesso.
A-DÉ-LIA: que linda menina perfeitamente disfarçada de mulher!!! Parecia salva de tudo quando lia uma boa estória. Sua vida seguia. Letra por letra, fonemas por fonemas. Idéias e Mundos invisíveis só aos cegos por opção ou pela tristeza do analfabetismo.
A-DÉ-LIA: que linda menina perfeitamente disfarçada de mulher!!! Parecia salva de tudo quando lia uma boa estória. Sua vida seguia. Letra por letra, fonemas por fonemas. Idéias e Mundos invisíveis só aos cegos por opção ou pela tristeza do analfabetismo.
__Ei Adélia, desça dessa árvore, menina!
Não havia como descer. Adélia não descia. Ela lia um livro lá em cima. Respirava fundo quando algum trecho lhe lembrava coisas que vinham à tona de vez em quando.
__Adélia, os carros vão te atropelar! Pelo amor de Deus, Adélia!
Mas ela não tinha medo de morrer atropelada. Ela tinha medo de morrer sem poder ler um bom livro, um olhar..um conto de fadas.
Um dia num papel letras e mais letras se encarregaram de lhe dar uma notícia, a mais triste de sua vida. Um exame de saúde nada rotineiro deu positivo. E ela já sabia que aquilo era o fim de sua jornada humana. Se encheu de tristeza quando pensou nos livros que não mais leria, naqueles que estavam ainda sendo publicados e em todos os outros que já existiam.
Um trecho de um livro foi lido em seu enterro__ o Livro Sagrado. Não, não chovia forte. Aquilo não era um filme. Adélia havia mesmo ido.
Adélia nunca quis ser uma estrela no céu. Bastava a ela ser página de livro.Por que diabos, pessoas assim morrem__se perguntavam em silêncio os mais achegados e amigos. A resposta não viria.
Gustavo, namorado de Adélia, voltou mais tarde naquele jazigo. Retirou do bolso uma página de um livro lido por ela e jogou por sobre a terra que a cobria, que cobria Adélia. Era um epílogo e tinha esses dizeres que um dia foram sublinhados por ela:
''...já fui Caminho, já fui Paisagem e hoje sou Destino''.
Gustavo chorou. Para ele não havia ninguém como Adélia no Mundo.