A COERÊNCIA
É com alguma frequência que os portugueses são bafejados por bênção divina, que os contempla com caridosas orientações, quais progenitores paternalistas que, preocupados com os caminhos a percorrer, se esforçam, de alma lavada e consciências tranquilas, na procura do bem estar, que, outro, não sendo possível almejar, vivamos esta vida desprovidos de bens materiais mas, ricos em moralidade.
Há políticos que, pelo seu percurso, têm responsabilidades enormes ao nível da formação das sociedades.
Sendo Portugal um país pequeno, potencialmente fraco economicamente, seria desejável que os parcos recursos de que dispõe, fossem canalizados para o enriquecimento cultural do seu povo, única forma séria de preparar um futuro que, não sendo de êxito garantido, sê-lo-ia pelo menos, na satisfação de o termos tentado.
Há políticos que passam uma vida inteira a decidir sobre a dos outros, nem sempre bem, antes pelo contrário, e quando os desejamos já acomodados, para nosso sossego, eis que, aproveitando sempre maré favorável, quando pressentem ser-lhes útil, porque diferente, associam-se a uma dúzia de "iluminados" na expressão avulsa de opiniões quase sempre de teor moralista, convenientemente de grande visibilidade pública, esquecendo hoje o que ontem afirmavam convictamente.
Vem este meu reparo escrito a propósito das posições assumidas por algumas "individualidades", que aqui não nomeio pelo respeito que devo a mim próprio, excepção feita ao Dr. Mário Soares, por razões óbvias, acerca de um programa que passa num canal de "Big Brother".
Pretender, subentendendo, que as grandes audiências deste programa são produto do baixo nível cultural do povo português é uma conclusão que, por ser tão óbvia na sua natureza, revela-se demasiado vulgar, daí, a inconsequência da sua evocação.
Não seria o assunto importante, não fosse a circunstância do Dr. Mário Soares não ter feito, enquanto ministro, Primeiro Ministro e Presidente da República ao longo destes 25 anos de vivência democrática, na assumpção das responsabilidades que lhe couberam, o necessário em esforço, tão só, para dar ao povo português os meios que, concerteza, alterariam para melhor os seus fracos valores culturais.
Procure o Dr. Mário Soares indagar em que extractos sociais da população têm maior aceitação as "telenovelas", as Júlias, as Fátimas, os Big Brother's e outros... e verificará que, naturalmente, naqueles que sempre chamou de mais desfavorecidos e que consigo chegaram aos dias de hoje a merecerem serem chamados carinhosamente de incultos.
Que força é essa Dr. Mário Soares, que o faz pensar que o povo não tem memória?
E porque será Dr. Mário Soares que o que é acertado para deputados que são contra a coinceneração, há meia dúzia de dias, em nome da consciência individual e representação regional ou local não é para o autarca de Ponte de Lima quando, em defesa do que diz serem interesses do seu concelho ou região, se dispõe a viabilizar o OE para 2001?... Onde está a coerência de princípios perante esta sua dualidade de opiniões?...
Para mim, nestes jogos, tudo está mal, mas a diferença entre a minha opinião e a sua reside somente no facto de eu me fazer ouvir a mim próprio e pouco mais, ao invés, as suas têm garantia a publicidade necessária à satisfação da promoção das suas diferentes opiniões, naturalmente, mantendo-se acesas as luzes da ribalta.
Na política, como em tudo, é sempre bom sermos desejados.
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