Escritas

A ALTERNÂNCIA E A ALTERNATIVA

Ilidio_Santos

A mão esquerda que exulta na vitória é a mesma que aperta a mão direita, num exercício de mosaico igual e uniforme, que nos bloqueia o acesso à razão. É tão surreal, aberrante e tão ostensivamente desafiador, que mais parece um desenho animado.

Procura-se na diversão e no patético, a forma última de entreter os apanhadores das migalhas que, dispersas, ousam transpor o tampo da mesa em direcção ao sobrado, ouvindo-se distintamente por sobreposição do mais forte, o alívio estomacal dos repastantes.

Como nos machuca esta malvada forma de sobreviver, quantos sorrisos afloramos para disfarçar o ranger dos dentes da nossa consciência?

Leio e ouço, por vezes, falar do divino. Suprema forma de estar que, por apropriação ou testamento de origem desconhecida, veste bem o poder despótico, a falência das ideias e o desrespeito pela dignidade humana.

É vê-los, num lamurio envergonhado, a tentar salvar a honra com que nasceram, iguais. Não merece a pena esclarecer, não adianta falar, já nem ouso o termo discutir, pelo seu conteúdo subversivo. Neste Portugal dos pequeninos, o arquitecto faz de engenheiro, o engenheiro de telefonista, o doutor de recadeiro e o resto, é isso mesmo, o resto, são os sem rosto.

Oh!... Tu... que podes mais, ajuda este povo a alcançar o reino do homem, o reino da inteligência e ilumina o caminho daqueles que, sem o saberem, são iguais ao nada e se apegam a patamares que só existem nas suas cabeças.

Ferro Rodrigues retirou-se da contenda política que o animava, num gesto de dignidade e carácter que considero exemplares, manifestam um desapego ao poder que faz corar de vergonha muita gente.

Já depois das homenagens de circunstância, rei morto rei posto, houve aqueles que, fazendo-se de desentendidos, estranharam a atitude do ex Secretário Geral do Partido Socialista. Houve ainda aqueles outros que não se contiveram e adjectivaram as suas qualidades tão alto que, estou certo, lhe provocaram alguns embaraços.

Num percurso que fez praticamente só, raramente vimos os chamados notáveis do partido a solidarizarem-se com ele, em momentos de particulares dificuldades . Ferro derrotou-os. Basicamente, Ferro Rodrigues nunca teve espaço para se assumir plenamente no exercício das funções de Secretário Geral. Foi, logo após o XXXIII congresso, alvo de ataques mais ou menos evidentes e que se resumiam à expressão que ele menos considera, a ganância pelo poder.

O povo português baralha as contas aos homens da alternância e dá a Ferro Rodrigues como que uma vitória nas últimas eleições legislativas. Afinal, o homem resistiu, torna-se portanto imperioso para a direita política, para a direita económica e para os que no PS vivem da alternância do poder e não da alternativa política, urdir um esquema que acabe de vez com a veleidade dos que acreditam no verdadeiro Partido Socialista. Daí poderá ter nascido a ideia de amputar-se Ferro Rodrigues do seu elemento de maior confiança política, Paulo Pedroso. Numa rede de malha esquisita, por onde passa muito culpado, acusa-se Paulo Pedroso e outros do Partido Socialista, só do PS, de estar associados a hediondos crimes de pedófilia.

Não foi suficiente, Ferro Rodrigues aguenta-se estoicamente ancorado na força de um carácter que o povo lhe reconhece.