Escritas

Vidros

Danilo de Jesus
O dia ia bem. O problema todo mesmo era à noite ou então quando eu passava pela as Escadas. Em casa tinha feito já todos os meus afazeres que incluíam desde estudar a limpar o teto e quando deram 17 horas, resolvi ligar para minha namorada e marquei para passarmos a noite juntos ou ficarmos em casa ate minha mãe chegar. Minha mãe é viúva e eu sou o único filho de um casamento que duraram 30 anos....

Depois que papai morreu mamãe decidiu mudar de casa, então, passamos a morar neste sobradinho, indicado por um homem que estava no velório de papai.Dizia ele que a casa era boa, que tinha 3 quartos muito bem arejados, sala toda na cerâmica, banheiro com boxe... Etc. e depois de colocar a casa num patamar bem maior do que ela realmente estava e baixar o valor da venda em 7 mil reais, falou que ficava encima de um ponto de comercio. Na hora minha mãe mal deu importância de qual ponto de comercio era... O que mamãe gostou muito foi que tinha três quartos e dava para guardar as coisas de papai em um deles.

Mary chegou às 19 horas e Mamãe chegou às 20h30min. Como de costume, mamãe e Mary trocaram longos abraços, depois Mamãe a chamou de a nora que pediu a Deus, e ela retribuiu com um carinhoso beijo nas mãos de mamãe. Ficamos em casa ate às 21 horas... Mary me pediu para continuarmos o passeio do dia passado. Então, demos tchau à mamãe e saímos.

Descendo a escada que ligava minha casa ao andar de baixo, o térreo, não comentei com Mary que pela malíssima vez tinha alguém me encarando de dentro do ponto do comercio... O passeio foi ótimo como sempre: beijamos-nos muitos, tomamos sorvete na mesma casquinha..., e trocamos interpretações sobre musicas e poesias. Depois como era de costume, levei-a em casa e fui dormi feliz.

Subindo a escada notei que de novo alguém me olhava... Pensei ser coisa da minha imaginação, devido ao que se vendia ali, e de novo não comentei nada com Mary e nem com mamãe.

Certe vez perguntei ao dono deste comercio, por que ele não trocava aquele vidro fumê por paredes. Dentre outras coisas ele acrescentou que por condições financeiras... E também deixou bem claro que o vidro fumê dava certo ar de luxo ao ambiente, e que também os clientes e seu avo acham linda aquela cruz vermelha em contraste com o preto do vidro. Falando nesses vidros... Tem uma coisa interessante sobre eles: que quem estava lá dentro não via nada do que se passava por trás do deles. Como não viram mesmo quando, eu e Mary nos beijamos pele primeira vez na escada de casa de frete a eles.

Essa é a parte que eu mais gosto desses vidros, o que eu faço do lado de cá das escadas de casa ninguém ver, por outro lado posso ver tudo que se passa lá dentro do comercio - Às vezes não muito mitidamente estranhamente, mas passo! Seu Francisco, o dono do comercio, é que às vezes não gostava nada disso. Inclusive porque ele tinha um romance as escondidas com Lúcia, sua secretaria.

Falei com Mary que o nosso primeiro beijo tinha sido na "vista" de três clientes, seu Francisco e sua secretaria. Ela ficou com raiva e um pouco sem graça, mas depois sorriu.

Esse certo privilégio de ver e fazer as coisas, sem que ninguém soubesse, por causa daquele vidro me deixou noites inteiras sem dormir.


O dia era domingo. Mamãe chegara às 6 horas da manhã, como ela tinha perdido suas chaves me pediu para ir abrir o portão... Subindo as escadas com minha mãe eu reparei bem para os vidros, mas não notei nada de especial. Salvo meu gato Stiff, um angorá puro, de dois anos, que estava deitado na metade das escadas. Mas ao descer sozinho a escada não encarei os vidros e mesmo assim não percebi nada de suspeito... A manhã prosseguiu normal.

Mary tocou a campanhinha de casa às 14 horas. Desci as escadas numa alegria tão grande que não pensei em nada e quase pisei em Stiff, que ainda estava lá dormindo. Abrir o portão para Mary entrar e tive a impressão de esta vendo um anjo: Mary estava tão linda, vestia uma camisa do Helloween, do álbum Pink Bubbles Go Ape, e cantava o refrão de your turn, nossa balada preferida e para completar o seu visual usava um saia bem a lá cigana, de cor preta, e calçava uma linda sandália preta bem rasteirinha que a deixava do meu tamanho... Seu cabelo estava solto e dançava bem abaixo dos ombros, como ondas no mar. ela subiu na frente e eu fiquei roubando da rua o agradável perfume que ela deixou no ar. 5 minutos se passaram ate que ela me chamou eu subir... Subindo as escadas ouvi uma espécie de arranhão de vidro, olhei para trás, decidir encarar bem para eles, mas só vi Stiff, que balançava docemente o rabo.

Mais tarde Mamãe saiu, mas chegou logo e eu não quis ir abrir o portão, Mary também não. Então ficamos num lenga-lenga de quem vai quem não mais ou menos 5 min. o que resultou em um beijo e uma disputa de par ou impar... Como sempre deixe que ela ganhar. E fui abrir o portão para mamãe, que estava lá em baixo mais que estressada por causa da nossa demora.

Desci as escadas com muita pressa e medo, mas dessa vez pisei em Stiff, que estava meio agitado, correndo de um lodo para o outro. Abrir o portão. Mamãe entrou e esperou que eu subisse as escadas na frente dela só para me dar uma mãozada de leve no pescoço e me chamar de lerdo.... Subimos os dois abraçados. Eu aproveitei a segurança dos braços de minha mãe para olhar mais que seriamente para os vidros e de novo não aconteceu nada...

Por mais que eu tivesse a impressão e muito medo "daquele alguma coisa me encarado pelo o vidro da funerária'', a pior parte da noite foi quando Mary falou que já estava indo... Flutuamos escadas a baixo... lá ao nos despedimos Mary fez a mesma pergunte que mamãe: "o que Stiff tinha?" Eu falei que ele não tinha nada e que devia ser coisa de gato mesmo..

Stiff tinha passado praticamente o dia toda na escada só entrado em casa toda arrepiado depois de um estranho barulho vindo do lado da casa de sue Francisco. Eu também tinha escudado o estranho barulho quando subia, mas não tive coragem de ir ver o que era. Das escadas foi direto ao quarto de mamãe, pedir para dormir com ela. Ela perguntou o que era, se eu estava com medo, eu falei que não. Depois muito grossa e cansada falou, você já esta muito grande, e que fosse dormir no meu quarto. Sem graça e com muito medo deixei as chaves do portão com ela e fui dormi no meu quarto.

Lá a noite foi longa...! Rolei de um lado para o outra da cama, liguei a luz do quarto, fiz do cobertor meu esconderijo secreto, escancarei a porta do quarto, coloquei um pano preto na janela e mesmo assim não conseguir dormir.

No dia seguinte perguntei a seu Francisco se a funerário tinha sido roubada, ou, se ele tinha deixado algum gato ou cachorro lá dentro. Ele disse que não, que lá dentro só tinha caixões vazios e com cheirinho de novo. Depois ainda fez uma gracinha sem graça: Perguntou por que eu não olhei pelo o vidro, já que eu tinha o costume de olhar pelo vidro quando e o que não devia. Fez essa gracinha e me deu dois puxões suaves de orelha e entrou na funerária.

Certo dia, Depois de ouvir seu Francisco contar a historia de um defunto que morava na em uma funerária, confessei a ele a 'certa impressão' que tinha quando subia as escadas de casa. Agora você me paga, danado! E mexeu as mãos como se amassasse uma espécie de massa... No mesmo dia depois da minha breve confissão, seu Francisco, fez uma nova arrumação na funerária, colocando do lado do vidro 3 caixões pretos em ordem crescente, todos muito bem floridos com velas ao redor, me dando a triste cena de só enxergar caixão deste o primeiro ao último degrau de escada. No outro dia eu ainda elogiei a acomodação dos caixões daquele jeito, seu Francisco fez ar de inocente, mas sorriu sinistramente com as sobrancelhas e certamente aproveitou o ensejo para contar mais uma parte daquele historia do tal defunto. Dizia ele que era uma sexta feira 13, e que o cortejo do tal defunto seguia sem um pé de gente. Depois de falar isso, fez uma cara mais sinistra e acrescentou: "provavelmente só as almas solitárias acompanhavam aquele solitário cortejo'', depois sorriu para mim e continuou falando que possivelmente o defunto chorava dentro do caixão.

Meu corpo todo se arrepiou de medo e não sei como eu vi que seu Francisco morria de sorria por dentro, embora estivesse com a cara mais seria do mundo.então, Ouvi um curte silencio. Seu Francisco pareceu ter esperado meu espírito voltar ao corpo. Feito isso, como se me arrebata-se para se, continuou: _ meu avo diz ter visto a alma do defunto cair do caixão, depois que o carro funéreo passou bruscamente no buraco, e correr para a tal funerária.

Mais uma vez o silencio pairou no ar. Seu Francisco em sua bissimétrica era um lado maldade e a outra alegria. Ah, Crianças! Elas crescem, mas nunca perdem o medo e esse adolescentezinho agora vai ver como bom espiar a vida alheia. Eu logo me desprendi daquela historia a toa que seu Frâncico me contara, mas como explicar aquele alguém me encarando? Tinha alguém lá. Eu sei que tinha! Eu já era bem crescido para ter certos tipos de medo, mas ainda assim meu medo era solto... (continua)
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