Quadro
Eu vou voltando para algumas lembranças trêmulas que se perderam dentro de mim. Elas estão aparentemente embaralhadas e tumultuadas entre outras cousas, cousas que você nota e perceber que são frágeis como corações, almas que são assustadoramente quebradiças. Eu vejo. Infelizmente, sim, eu vejo. Vejo árvores expandindo-se até o céu, quase que acariciando o rosto das nuvens como se acaricia os lábios de um amor abandonado. As folhas dançam com o vento, é um silêncio lento de vozes roucas. Folhas de outonos passados serpenteando entre lágrimas dóceis e gentis. Era uma festa. Daquelas que é costurada em sua memória e se estiver perto de desvanecer, sua alma chora para tê-la mais perto. Era uma chuva. Chovia poesia a cada palavra boba que segredava em meus ouvidos, guardava em meu coração, protegia aquela confissão. Uma chuva. Aquela água de poesia que nos perdíamos em suas brechas só pra sorrir por um minuto a mais. A chuva ia com o vento entre as árvores, aquilo se expandia, era quase como um quadro. Era como ter aquele belo corpo grudado ao seu, sendo seu. Chuva. Folhas. Vento. Eram minhas preces por dias recheados de esperança até cansar-me e dormir ao leito de sonhar contigo. Deleitava. Era um bosque, bosque de lembranças úmidas que não secavam nem com o vento beijando-as displicentemente até fingir que não quer mais só para dormir um pouco essa felicidade. Guardo isso à mim. Com egoísmo estufado e desenfreado, eu deixo isso no recôndito do meu coração, nas planícies de minha alma. Guardo esse meu desejo de ser você (ou nós).
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