Escritas

A valsa

Tiago B. Lyra
Cai à chuva e a janela aberta
ulula coisas, ternuras que
sempre solitárias
tramam carinhos noturnos...

Velo sobre as ondas e as ruas
desvelo de ais de asas de sonhos
enquanto teu sonho se assemelha
a um mastro de proa oceânica...

Rios solitários correm em minhas veias
comboios, procissões de preces, luares.
refulgor de lâmpadas me acena, aterradas
profundo de signos que ninguém entende....

II

TUA face de águas longes
brilha no céu, e na terra fecunda
semeiam espigas cor- de- prata.

Abraço a brisa e desde então caminho
com o vento, com as conchas marinhas
sonoras, edificantes, serenizadas.

Longe, longe das vozes dos bichos e dos homens
sinto toda a brancura da lua
sinto o escurecer das tardes sem estrela.

Mas se a luz clareia os meus olhos hirsutos
minha memória é um piano mudo
uma canção, uma trova sem substância.

Supérflua e bela é essa música que eu canto
sem voz, atônita, esvoaça e vai
quando no íntimo dispõe alegrar o infinito.

III

Vinhas de longe
a madrugada solene
abri a porta aos marulhos espinhosos
E vinhas distante
trazendo salinas areias
meu rosto, meus pés, me permeavam entre as roseiras
e minha infância caía sobre a noite
e sobre a noite caiam mulheres
com seus vestidos de luva.
Chorosas mulheres que foram meninas
agora adormecidas vão ao meu encontro

Que solidão! Que desespero de raízes antigas!
O que fizeste contigo? Qual culpa afugentou o tornadiço?

Pouco me importa se o outono traz-me o olvido
ou se a primavera renova os botões das rosas
Pois o amor é um exercício sem precisão de sê-lo

Tiago. B. Lyra
in "A lira desgovernada"
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