Escritas

Naufrago

Danilo de Jesus
Ali vai o meu sonho:
Tão leva e tão divino:
Depois que ele acordar
Sei que não saberei mais sonhar.

Ali vai o meu sol:
Vai luzindo no céu traiçoeiro
Mas depois que a noite acordar
Sei que ele não saberá mais brilhar.

Ali estar o mar
E suas ondas que vem e que vão
Inundam minha vastidão,
E como uma sereia -
Parece-me enfeitiçar.

Assim como o rio
Minhas chagas correm para o mar -
Mais todos também parece
Lançar suas feridas ao mar.

Aqui vou eu
Dentro de um navio,
Que é o próprio eu,
Sobre o mar - imenso e calmo mar
Que mais cedo ou mais tarde
Irá me afogar!

Assim foi tudo que sou:
Sempre uma amargurar a curar e
Sempre uma nova amargura a magoar
Sempre um sol a se apagar
Sempre um sonho a se frustrar
Sempre um navio a naufragar

Sempre que achei certo
O que já era certo
Já não era certo se achar
E boquiaberto, esperei quieto,
Uma nova chance de achar.

Para o mar eu vou indo,
Vou indo para o mar

E o medo me constringindo...
E o sol desluzindo..
O sonho fugindo...
E lá no fundo do mar
Para sempre
Meu navio vai caindo.
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