A UM SUICIDA
'Ele apenas acordou do sonho da existência'
(Shelley)
'Não vás tão gentilmente nessa noite linda'
(Dylan Thomas)
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste encarar
A infinita imensidão do Nada.
Eu poderia
Chamar-te fraco
Mas o que sei sobre a força
Quando mal consigo
Suportar o peso das lágrimas?
Só tu conheces tua dor
E ela ficou cerrada em teu esquife
Muda como uma esfinge
Misteriosa como um bruxo
Cortaste as veias
Como a navalha da aurora
Corta a madrugada
O que pensaste nesse instante?
Se a esperança te levou
Ou se por ela foste abandonado
Nunca saberemos
Sei que me abandonaste
Neste mundo cruel e sem sentido
Sendo refém do tempo
Que dissolve todas as alegrias
Poderias ter ficado
Mas em vez disso
Escolheste engrossar
As fileiras dos suicidas
Não apertaste contra as têmporas
O estampido rouco de um gatilho
Nem como Sócrates
Ingeriste veneno
Mas te rendeste
À magnética atração do Nada.
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