MADRIGAL II
Anjo exilado do celeste abrigo,
Que à Terra trouxe o teu sublime encanto,
Ouve as palavras deste pobre amigo
Que te admira e que te adora tanto.
As noites passo a cismar sozinho
Se há no mundo alguma coisa bela
Que merecesse a flor do meu carinho
E eu merecesse a do carinho dela.
Aceita os pobres versos de presente
Que foram escritos com ternura tanta.
São explosões que surgem de repente
Das confissões que guardo na garganta.
Difícil é crer que há no mundo alguém
Tão linda e tão perfeita quanto és.
O astro mais belo que o céu retém
Nem mesmo chega-te ao dedão dos pés.
Se eu ver-te assim, a caminhar na areia,
Tão graciosa na beira do mar,
Diria se tratar de uma sereia
Que a terra seca veio visitar.
És mais bela que os raios da manhã
Quando desperta o Sol do seu sono profundo.
Maior que Michelangelo e Rodin
É o escultor que te plasmou no mundo.
Que ágeis mãos teu corpo deram forma?
Quem foi o teu augusto artesão?
De quais modelos, qual padrão, qual norma
Foi imitada a tua perfeição?
As roseiras de ti sentem ciúme,
As estrelas invejam teu sorriso,
A beleza em teu rosto se resume,
És pedaço fatal do Paraíso.
Não é mais bela a joia mais brilhante
Do que teus olhos, posso assegurar.
Até mesmo o mais caro diamante
Não brilha como brilha teu olhar.
O olhar, quando te encontra, se demora.
Diante de ti o ocaso se intimida.
Mesmo a Lua, tão bela e encantadora,
Lamentaria, se tivesse vida.
Pra essa beleza já não há rival
Entre os seres criados e incriados.
Na cristalina esfera celestial
Pendem anjos por ti enamorados.
No entanto, eu nada tenho a oferecer-te
Em paga aos sentimentos que despertas.
Tenho apenas a lira, a mão inerte,
E um peito cheio de chagas abertas.
Anjo exilado da celeste altura,
Aceite os versos de doçura e fel,
Que os leia e pense neles com ternura
E lembre do teu triste menestrel.
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