Entulho de Poesia
Gayan
Penduraram no teto do quarto
minhas sobras de versos,
os rascunhos naufragados,
as palavras que se desagregaram
por fissão fonética,
as ideias sinuosas
que não se fecharam
em preciso círculo,
as rimas necrosadas,
doloridas, apáticas.
Penduraram ali
por pudores de descarte,
para que não findassem
no lixo comum
entre restos de comida.
(vai que algum mendigo famélico
que revira latas de lixo
delas se alimente
e, por efeito acumulativo,
adicione à indigência
também a loucura)
Sim, ali penduraram!
Mas, o teto, que é de concreto,
projetado para suportar
matéria concreta,
não suportou o peso
do abstrato:
desabou!...
Desabou e ficou pendurado
nos inobjetos que nele
se pendurou.
Virou também entulho
de poesia.
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