Escritas

Poetas de pés sujos

Gayan

Poetas de pés sujos
à Adélia Prado

Poesia tem que ter barro,
caco de telha, goteira de telhado.
Poesia de sentimento puro
não presta.
Criança é quem melhor faz poema
e sem pegar no lápis, longe do papel.
Poesia está na casca da árvore
enrugada de canto de cigarra:
é só ir lá e por o barulho na garrafa,
lamber o tronco até pegar o gosto
de um verso qualquer.
Não se começa uma poesia
olhando para as estrelas,
elas estão distantes e frias,
e já se esgotaram da própria luz.
Começa-se uma poesia
olhando para o chão.
Adélia, aquela que tem muitos prados
e montanhas de Minas no nome,
ensinou-me isto.
É estrume verde de vaca que cria
que é bom para rimar com alegria,
e não agonia, euforia, alegoria...
Poesia dá em árvore que não se cultiva,
que nasce e cresce sozinha no campo;
você passa por ela, vê o fruto e colhe.
Simples assim...
Ah, ia me esquecendo:
poesia não tem fim.
Poesia só tem começo,
porque dentro.
Eco infindável na infinita alma
do poeta.
Círculo cujo centro está em toda parte
e a periferia em parte alguma,
e que me perdoem os hermetistas
pela apropriação mais que devida.
Poesia é quase que um nó na tripa.
Quando aflora na gente,
a dor de senti-la é na barriga.
Cabeça e coração
entram depois nesta confusão.
Poesia é o olho de Deus
para quem não tem olhos
de ver Deus,
mas quer ser visto por Ele...
-Bom, compreendi pouco
desta coisa de olho!...
-Ótimo! É sinal que estamos perto
da visão...
No santuário da poesia,
há uma placa esculpida no frontispício
que, em letras douradas, diz:
'Você está pisando em solo sagrado.
Por favor, suje os pés antes de entrar'.
Não acredite em nenhum poeta
que não tenha os pés sujos.
Agora, peço licença
para ir sujar os meus...