Poema do Fim (Prelúdio)
Já se são dez do mês e já passam das quatro.
É abril.
É, abriu.
Eu bem quis, por teimoso que sou, segurar os ponteiros do relógio.
Mas são muitos relógios no mundo aflitos vomitando Tempo - o tempo todo -.
Eu bem quis, por berro, lástima e soluço, desistir da Ida.
Mas Dona Ida é um senhora certa, e, não fujo, Dona Ida me acertou.
Por que os homens grandes me diziam para o não fazer?
Eu preciso chorar!!!
Calado e só, na praia, não soube mais o que era lágrima ou o que era Mar.
Então, deitado n’areia triste à beira d’água,
eu bati o pé. Chão já não tinha.
Nada lá tinha.
Nada se não o sempre infindo horizonte.
Eu o olhei, vi que não tinha ninguém e o molhei.
O Sol azul de amar queimava-me.
Só o azul do Mar eu tinha.
Só o azul do Céu eu tinha.
Só o azul.
Só.
Não tinha amigos, não tinha Mãe, não tinha música,
Alunos não tinha, luar não tinha, paz também não.
Nada lá tinha.
Só eu.
Eu, só.
E o que sou eu?
Grão de areia ante o calçadão?!
Gota de lágrima emergida no oceano?
Sou eu esta lágrima viva que cai
Esta onda que levemente se desfaz na beira d’areia?
Ou sou mar, este todo?
Eu sou, quiçá, saudade, lembrar.
Sou uma casa escura em noite sem lua,
Há ali, sapos a cantar.
Quem eu sou não sei, não fui, não vi.
Sei que eis-me,
só,
eu,
cá.
Quem vai ouvir minha ensossa poesia
E minha voz rouca cantar?
Onde estão as pessoas?
Onde está o mundo?
Quem vai me ensinar?
Sou Palhaço medroso
E temo só estar
Quais mãos, braços e peitos irão me abraçar?
Amigos, caminho.
Vou sem nada rumo ao tudo que sonhei.
E sem nada, vou nadar.
Onde estão todos?
Sei que um dia vou querer ler Drummond,
Na pedra?
No Mar?
Onde?
Quem vai parar pra escutar
Um Palhaço apaixonado por letras,
Por gente, por Mar?
Muitas portas se fecham em Abril.
E quem sabe qual outra abrirá.
Será a dor certa? Ou é felicidade?
Eu não sei. Não sei. Mas vou.
Pra minha vitória ou derrota,
Pra pausa ou continuidade,
Não sei se estou morrendo de lembrança
ou vivendo de saudade.
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