Escritas

À minha mãe

mariofrs

Quando suas mãos santas cobriram-lhe a fronte e seu rosto lindo de desfez em pranto, eu tive a certeza de que o minuto nosso último se subtraiu. Eu me decompus. Foi naquele momento em que seus olhos brilharam de pra sempre e suas vistas baixaram como nunca mais, que eu beirei em meio ao desalento desistir do voo, das nuvens e do todo grande sonho que, de ousado, eu criei. É que ter visto, minha mãe, seu olhar pr’aquele chão infindo em tom de luto, foi da minha vida toda o pior instante que vivi. Eu quis dizer, eu juro, das cousas que no fundo o meu coração sombrio esconde, mas que palavra soaria bem no momento em que filho e mãe se desprendem pela primeira ou derradeira vez? Beijei-lhe a testa porque, triste, eu não sabia o que dizer, então no íntimo frio que a dor tem eu parei, gritei por dentro um tanto quanto meio sem ar e chorei. Ah... eu chorei! Chorei-lhe o quanto pude esconder, mamãe, e cri dali que a vida me reservada era nua como a noite e incerta como o amanhã que pode não levantar-se ao sol das seis. Minha mais amada flor, eu parti como se parte um coração e uma parte de mim ficou, a outra o vento levou ao céu anil e transcodificou-se em pó de solidão. Agora, eu todo só que sou, me crio como se cria a fonte de um rio que gere lágrimas doces ao mar e me faço em versos para lhe dizer do amor que sinto e do amor que é (você). Minha rainha, neste dia em que minha voz sangra as cores da janela vidrada eu venho lhe dizer, a rastejar de lembrança e saudade, que lhe amo sem igual, ao tanto que não sei quanto, a todo que não sei tal. Te amo em estado incondicional.