Escritas

SEREMOS UM ? (parte 2)

teka barreto

Satori


Lena fechou o livro. Colocando-o em seguida ao lado da cama, por sobre a mesinha de cabeceira. Um pequeno verso vagava agora, entre seus pensamentos, transformando-os em um emaranhado de palavras, que adquiriam múltiplos significados.
Parecia sentir o esforço, que emanava de um lugar dentro de si.
Sensação de aprisionamento, sem localização ou motivo definido.
Sentia-se como um pássaro, que inadvertidamente entrara em uma casa, encontrando pela frente, uma janela de vidro fechada.
De súbito percebeu claramente, que sua mente agia como uma barreira, difícil de atravessar.
Como aquela tal janela de vidro. Uma espécie de incompletude... Limitando um salto mais amplo de uma compreensão, que sentia existir em um lugar qualquer,dentro dela. Um nada... A ser conhecido.
Então aconteceu...
Por um momento, sentiu-se transpor aquela ilusão de barreira.

Um pequeno verso contendo dez palavras, três virgulas e um ponto final, produziu como que, uma explosão interna, abrindo as janelas da alma. Colocando-a por alguns segundos, num estado contemplativo conhecido como Satori.
Um vácuo nos pensamentos arremessou-a para fora do mundo mental comum, fazendo-a tocar a amplitude que existia, entre e além dos pensamentos.
Sentiu a alma expandir-se em plenitude e êxtase. Um profundo e indescritível silêncio dissolvia tudo a sua volta.

E esse tudo dissolvido... Era também, ela.
Não haviam palavras, capazes de descrever o que sentia. Simplesmente percebeu, neste estado ampliado de consciência, que sabia! Aquele ponto final, era apenas um simbolo que ela chamava de fim. Mas, não encerrava o conteúdo do verso... Ela sabia-se ponto e sabia-se... Interprete.
Então os pensamentos voltaram, brotando em forma de palavras ao intuir:
- Um ponto final é uma grande ilusão... Total !
Assim, saiu desse estado contemplativo.
Sua mente assumira o controle, desarquivando lembranças de sua memória. Numa sequência de saltos, semelhante a pipocas estourando numa panela.
Lembrou-se do tempo do ginásio, das aulas de literatura, dos poetas que estudara, dos namorados que teve, do concurso de poesia.
Sua mente era novamente uma pipoqueira,produtora de pensamentos aleatórios e soltos a qualquer vento.
Entre tantos pensares, quis saber a diferença entre prosa e verso. E concluiu, mais uma vez, ao pensar que concluía...
O mundo da poesia, vai além das palavras.

Permeia e Vagua pelos Mistérios da Existência e...

Deus..

Esse Grande Mistério.

Recitou baixinho, preparando-se para dormir nova...Mente. Aquele pequeno segredo, descrito em forma de verso... Lena tinha-o claro, vivo, pulsante em sua lembrança. Uma fotografia estruturada em forma, letras, espaços brancos e palavras. Que lhe convidava a dar um amplo sentido e Interpreta-lo ao seu bel prazer.

Você é consciência universal,
Sempre foi,
Sem começo,
Sem fim.

Viagem Astral

Adormeceu e sonhou...
Estava sentada diante de uma mesa enorme,envolta em volumes de livros dentro da biblioteca. Uma dezena deles, haviam sido manuseados por ela. Lena levantou-se determinada a acomodá-los nas prateleiras. Sidnei, o bibliotecário, não gostava desse tipo de ajuda. Dizia que as pessoas não sabiam ordena-los adequadamente. O que acarretava um caos, em vez de ordem. Ignorando essa observação prosseguiu seu intento. Ao arquivar o último livro, tendo o cuidado de olhar cada etiqueta de catalogação e sua prateleira correspondente, pensou em retornar para casa.
Durante o percurso entre as estantes e aporta de saída, um livro pequeno, porém bem grosso, chamou-lhe a atenção. Preparou-se para apanha-lo, mas não completou seu gesto, mudou de ideia. Recuou o gesto de pegá-lo, sem que seus dedos o tocasse, ao ler o titulo.
Era um Dicionário! O tão desprestigiado, Pai dos Burros! O exemplar era ricamente encadernado e da língua portuguesa. Uma pontinha de decepção fez parar seu primeiro impulso.
Ele é lindo mas... Tocou-o, pois não resistiu a aparência da textura e as cores. Era aveludado, marrom escuro e escrito em letras douradas. Deslizou vagarosamente os dedos. E isso foi tudo.
Virou-se rumo à porta envidraçada,determinada a sair. Assinou o livro de presença e seguiu para casa.
Caminhava tranquila pela estrada de terra,margeada por lindas flores silvestres. Conhecia bem aquele caminho, que ligava o bairro de Santa Bárbara , ao pequeno e aconchegante distrito, de São Francisco Xavier.
O sol nascera há poucos minutos e aquecia o seu corpo agora. Tira então a blusa de flanela, amarrando-a com as mangas à cintura.
Um matuto a cavalo vinha na contra mão e sem pressa alguma. E vida boa essa vida na roça. Pensou...
Dia! Dona,Lena!
Bom dia! Eque lindo dia, né mesmo?
Sim Dona Lena! E quás graça de Deus... Nóis vai levando a vida., como Ele Qué!
Deus ajuda quem cedo madruga.
Vai com Deus então!
E a sóra fica cum Ele, tumêm!
Amém! respondeu ela.
Amém, Dona Lena!
Não sabia o nome dele, nem quem era. Nunca o tinha visto, por essas bandas. Mas na roça é assim. Gente simples, trabalhadora e educada, aparece sempre pelos caminhos.
Depois de 30 ou 40 passos... Algo veio na ideia dela.
Achou estranho ser tão cedo e já estar retornando da biblioteca. Mas não atinou mais que isso.

Logo esse pensamento dissolveu-se. Sentiu no rosto e nos braços o calor agradável dos raios de sol.
Era uma manhã magnífica.
Na margem da estrada, onde milhares de hortênsias, beijinhos e cósmos, decoravam o caminho, uma pequena flor de oito pétalas chamou sua atenção.
Aproximou-se vagarosamente e ajoelhou-se diante dela. Era um cósmo.

Florzinha, simples e muito comum em sua chácara. Observou-a apenas, sem que tivesse coragem de toca-la.
Sua cor amarela, bem viva, puxando para alaranjado, parecia emanar uma luz diferente, muito brilhante, que lhe deixou como que... Intrigada, num misto de fascinada.
Fixando o olhar notou. Dela saiam raios luminosos e raiados. Como se lá estivesse encrustado, um brilhante.
Piscou e viu com clareza, uma minúscula gota de orvalho, pousada em uma das pétalas. E a pequena esfera parecia dançar, rodopiando vigorosamente, sem perder a forma. Desse turbilhão de movimento, real ou imaginário, emanavam múltiplas cores que cintilavam ou explodiam, provocados pela luz do sol.
A imagem era magnifica tamanha a beleza.
Percebeu um Universo revelado, na quele microcosmo. Numa florzinha de cósmo, em forma de gota.

Sumiram as palavras da sua mente. Incapacitando-a de descrever tamanho espetáculo.
De repente, ao ver-se sem palavras diante da cena, sentiu-se muito confusa e insegura.
Algo desperta dentro dela.
- O que é que estou fazendo aqui? - Que coisa doida! Não me lembro de ter saído de casa... E logo tão cedo?
Lembrou-se que estivera lendo um verso.

Como chamava mesmo? Era Confucio?

Não! Não era Confucio... Confusa estou eu.

Eu li um pequeno verso....

Fechara o livro, lembrava-se disso, colocando-o na mesinha de cabeceira.
- Cadê meu livro? Meu quarto... Minha cama?

Teka barreto/2008

(Fim da parte 2) continua...

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