Escritas

Milagre ao pé do caixão

teka barreto

Fecha, fecha, fecha!

Ordenava Lana, aos presentes. E é a partir deste ponto que ela, prontamente assume e organiza rapidamente, os próximos passos, adequados. Direcionando habilmente o fim da cerimonia e o fechamento do caixão.

Deste momento em diante tudo transcorre pacificamente. Mas minutos antes... Aquele início de confusão familiar, poderia facilmente ter se transformado em noticias dignas, à serem estampadas às pressas, devido a hora do fato ocorrido. Cenas adequadas a um jornal de quinta categoria.

Cenas de revoltar o próprio Sr. Datena. Cenas de um ódio desmedido, que revelariam coisas mais e mais cabeludas ocorridas em tempos passados, entre os desafetos.

Foram cinco minutos constrangedores. Dignos de meu relato por um único motivo.
Percebi ao longo do tempo e observando o comportamento de alguns, que tem gente que parece humana. E este é meu alerta. Gente que, já morreu e não sabe. Fantasmas com carne e ossos a arrastar-se, prá lá e prá cá! Nariz impinado e soberba na boca.

Gente morta que até vota, como qualquer cidadão eleitor. Gente morta que dirige um carro, paga suas contas e até trabalha depois que aposenta. Abutres que em verdade, mais atrapalham e destroem sonhos, do que contribui socialmente na velhice que se instala, precocemente.

Compreenda. Foram palavras sabias as proferidas por Jesus. Há mais de dois mil anos atrás. "Deixem que os mortos enterrem seus mortos".

Fecha, fecha, fecha!!!

Lana cutuca Lídia e logo, as duas contornam o clima ameaçador, descabido, deprimente e hostil. Rapidamente, as duas passam panos quentes.
Que jogo de cintura tem elas. Lana e Lídia. Como se SABEM e se conhecem de
cor e salteado elas duas, eu diria.

Coisa de cento e oitenta segundos, mais ou menos. E milagrosamente, tudo voltou ao normal.
Gente que ainda estava do lado de fora e respeitosa e mansamente se achegava, sequer percebeu o ocorrido.
O contornado inicio de tumulto.

Muitos nem se perceberam da postura insana, do patético filho mais velho da falecida. Olhos injetados de ódio a fitar e intimidar o irmão caçula, Pablo.

Eu observava um pouco afastada, aquela agressão tosca, odiosa, acintosa, intimidadora e silenciosa.
Do tipo hipnose de serpente asquerosa.
Para mim aquilo tudo, não era nenhuma surpresa.
Conheço bem aquele bronco ladino e abusador, de minha infância.

Faltavam exatos cinco minutos e eu, me coloco estrategicamente, naquele exato ponto do salão. Torço para que tudo termine com paz e respeito. Sem grande alarde ou roupa suja prá se lavar publicamente... E bem num momento desses.
Com o bronco ali... Ah, isso era bem possível de virar baixaria ou pastelão.

Nossa mãe merecia partir como toda dignidade.

Eu não precisava provar nada, nem tinha nada a esconder. Despedi-me dela em vida. Em meu último beijo, ela ainda estava quentinha... Estivemos sempre presentes eu e o Pablo. Dias e noites ao seu lado. Como amigos leais que se unem e se ajudam, em momentos difíceis e de dor. Nos fortalecíamos assim, mutuamente. Estivemos juntos, nesses últimos três meses de muita tensão e incertezas por virem.

Atuando e acalmando a nossa mãe, vitimada novamente, por um segundo derrame cerebral. Leais aos nossos princípios morais e éticos. Como deve ser o agir de seres humanizados. Atos espontâneos e sinceros entre irmãos e filhos, que respeitam a eminente passagem de um ser humano, e nestes momentos revelam a todos, o quanto amam os seus pais.

Em meu posto, um pouco afastada, estava atenta. Logo me emociono ao vê-lo respeitoso, se aproximar do corpo dela. Um meigo e afável olhar, que Pablo pousa delicadamente sobre ela. Minha... Nossa mãe.

Ele parecia rezar, confortando-a e a si mesmo. Momento angelical entre os dois.

Do lado oposto observo, aqui do meu posto...

Aquele bronco a mirá-lo acintosamente, soltando toxinas e venenos pelos olhos dementes e de alma ausente.

Aquela coisa senhores, não era uma expressão humana. Revelava estar ali e de corpo presente, um asqueroso, um odioso demônio encarnado. Sem amor ao próximo, nem mente e muito menos coração.

Alguns amigos e parentes presentes no salão, ao perceberem algo estranho no comportamento do quadrupede, se posicionam atentamente, assim como eu.

Estrategicamente estamos bem preparados ao que poderá surgir. Não há conversa alguma acontecendo. Só troca de olhares. Sinto-me protegida e cercada por muitos seres do bem.

O clima é tenso. Sinto no ar cheiro de confusão, misto de enxofre e flores.

Alguns, porém vendo a cena inusitada, intimidativa e não menos que interrogativa, se aproximam ainda mais de Pablo. Formando assim, intuitivamente, um cordão de proteção contra um agente do mal, que o espreita, com cara de lobo mau.

Pablo nem se apercebera. Tão absorto estava ele, em seu último adeus a mãe.

Foi quando o tal bronco, sendo ainda mais aviltante, o pescoço esticou em direção ao Pablo. Como quem quer meter o nariz onde não lhe cabe adentrar. Uma desrespeitosa e visível invasão de privacidade. Atitude típica de gente chula e sem noção do momento solene e funebre.

Estavam de frente, os dois. Separados apenas pela largura do caixão. Aquele narigão exalava enxofre e podridão no ar. Lembrei-me de um ditado que minha mãe sempre dizia.

"Por fora bela viola. Por dentro, pão bolorento".

Era patética, horrenda e descabida aquela cena. Um demônio encarnado, fitando um inocente. Como se fosse uma cobra vil e astuta, espreitando um rouxinol a cantar mansamente, um suave improviso inaudível de uma reza entre almas afins.

Foi quando resolvi se achegar e me juntar ao grupo de cá. E assim fiz.

Estava eu, distante do caixão uns nove ou dez passos.
Senti que toda nossa dedicação, minha e de Pablo, para com nossa mãe, ainda não terminara.
Aquele animal, que tentara nos intimidar, tinha que ser colocado no seu devido lugar.

Sua dor fingida e sua prostração ao lado do caixão por mais de duas horas e meia, fora apenas provocação e nada mais. Típico dos bichos que demarcam seus territórios. Ou cagando ou mijando no entorno. Me desculpe leitor, o palavreado chulo. Considere estes termos, reconhecidamente agressivos, inclusive por mim, apenas expressões narrativas aqui aplicadas, com a finalidade de descrever todo meu asco, repugnância e indignação.

Eu e Pablo não mais nos aproximamos do corpo dela, desde que aquele bicho homem chegou ao salão. Não queríamos dar pérolas àquele porco insano.

Já tínhamos nos despedido dela muito antes da chegada dos amigos e familiares. Estávamos cansados, mas havia serenidade, respeito e paz em nosso comportamento e apesar de tudo.

Segui confiante, escudada por minha força interior. Estava determinada a por um ponto final naquela palhaçada descabida de maneira firme e respeitosa. A força do respeito, era o meu escudo invisível. Eu me sentia poderosa e capaz. Seria com um golpe certeiro. Dado com um simples olhar aguçado, afiado, ferino e fatal. Eu já antevia a explosão daquela cabeça cheia de vento flatulento.

Entrelacei com meu braço direito, a cintura de Pablo. A minha esquerda estava Lana. A direita de Pablo, Lígia.

Não olhei para o corpo dela. Não fui dizer adeus a ela... Minha... Nossa MÃE!

Fui revelar a ele... Que eu e Pablo continuavamos sim, juntos e até o fim, do lado dela.
Mostrar que exigiamos que ele, se comporte e respeite a ela, falecida e de corpo presente e a todos presentes, como um ser humano que se comporta como gente. Que respeite nossa dor e o momento póstumo, fúnebre. In memória daquela, que é também sua genitora, que agora diante de todos... jaz.

Aproximei-me e olhei fixamente para aquele pulha asqueroso, envelhecido e caquético. Agora ele estava à minha frente.

Ele transfere seu olhar de cão sarnento e louco para mim. Eu, simplesmente olho para sua miséria humana. Fito-o e adentro naqueles dois olhos ocos, claramente sem luz ou resquícios de um brilho... Olhos sem alma.

Tento sem nada dizer, acordá-lo daquele seu transe insano e hipnótico. Olhar típico de um pernóstico.

Enquanto o encaro frente a frente, observo o seu arfar crescente. Uma explosão iminente é agora visível e até previsível.

Os junto dele, começam a segurar o animal que nele desperta, como sua própria irracionalidade, assim o revela.
Um bicho acuado e rosnando, diante de mim é o que vejo.

Este bicho homem, está claramente sendo domado por alguns. Vejo grande besta, acuada diante de mim. Intimidada pelo meu olhar certeiro.

EU SOU, total confiança envolta em consciência. EU SOU, pura paz. Poder maior que me orienta os atos a seguir.

Vejo-o se debater e arfar como um demente... Enquanto EU SOU, PRESENTE EM CORPO E MENTE.

Segundos apenas, se passaram. Descrevê-los, leva uma eternidade.

Sinto brotar de dentro de mim uma forte vontade de rir.
O que não faço por motivos óbvios.

Segundos patéticos, diante do que se revela.

Mas confesso, esbocei diante dele um leve sorriso, imperceptível na boca.
Sorri com os olhos, para ele.
Foi meu golpe final... E de misericórdia!

Foi quando o monstro se rebelou de vez. Grunhiu tal qual um bicho raivoso com focinheira na boca. Dois rugidos pouco articulado e entre dentes saíram enfim.

Só ouviram os atentos e bem próximos da cena. Duas pequenas frase foram com visível resistência articuladas.

Frases que já ouvira muitas vezes. Vindas daquela mesma bocarra escancarada cheia de dentes e imunda.

Apesar do momento solene e tão fúnebre... As duas frases escaparam ao controle dos que tentavam evitar o previsível desastre. Entre seus dentes cerrados, boca babando e olhos esbugalhados ele berrou! Berros abafados por ele mesmo, eu diria... O próprio fel produzido em suas glândulas o sufocava e o paralisava. Mas as frases enfim foram arrotadas...

Sua vacaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!

Sua filha da Putaaaaaaaaaaaaaa!!!

Claro que aquele asno, foi logo arrancado dali e rapidamente. Literalmente a besta, foi tirada de cena.

Muitos nem entenderam o porquê de tanta gente a segurá-lo e a arrastá-lo para longe.
Talvez a tristeza da perda da mãe, alguns com certeza deduziram. É normal, quando se ama muito os pais, outros diriam.

Coitadinho... Viu como ele não abandonou o corpo da mãe um só instante. E blá, blá, blás de justificativas as carradas.

Antes de imobilizarem-no, pude ver claramente que levara um belo e bem dado bofetão no meio da cara.

Bem no meio da fuça.

Foi logo ao fim da palavra, pu... taaaaaaaaaaa!!! Um sonoro tapa, merecidamente e certeiramente muito bem aplicado! Eu pude ver e ouvir. Aquilo foi música em meus ouvidos.

Mão santa aquela. Da outra insana.
Me pergunta você... Tem mais loucos?

Digo... Nem te conto leitor. Quem sabe aos poucos e em outros contos.

Sim, tem tarja preta também, na família. É minha outra irmã, Cacilda Maria.

Naquela fração de momento exato e perfeito Stap!!! Um bofete bem dado... Posso jurar senhores, senti minha própria mão esquentar e formigar logo em seguida.

Cacilda Maria, mesmo sendo ela uma esquisóide, assumida e conveniente. Teve sim, um fio de bom senso. Misto de sanidade e santidade, eu diria.

Fecha, fecha, fecha...!!!

E foi daí, que Lana assumiu os finalmentes do cerimonial de último adeus, a sua querida e amada madrinha.
A Minha... Nossa mãe... preciosa.

E assim, você que até aqui me acompanhou, termino esta narrativa.
Pois foi um milagre, o que aconteceu ao pé do caixão de minha mãe.
Um tsunami foi deveras e habilmente controlado.

Entre possíveis mortos ou feridos eu diria... O número não aumentou.

FIM

Nota da autora.: Qualquer semelhança entre a vida real e os personagens deste conto, é pura e mera coincidência.

Teka Barreto

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