Escritas

Lavoura

Júlia do Monte

Sobre o chão descalço sinto a terra úmida dar-me inspiração.

Sinto a energia pagã entrar em minha pele tentandoinutilmente livrar-me das chagas psicológicas impostas por um deus maléfico.

Sinto a tristeza de saber que piso em nada além de pó.

Em pó. Pó.

E penso: se do pó viemos e ao pó retornaremos, será essanossa sina? Pisar em sofreguidão alheia já esquecida?

Penso, mas piso e sinto.

Sinto a melancolia e a esperança que se emana.

A de todos os já deteriorados corpos que um dia tiveramforça pra viver e pisar com fé no que estava por vir.

E se acabaram. Mas com a fé começaram.

Então, sobre o chão descalço sinto mas logo me esqueço. Evivo.