Escritas

[Anoiteceu a tarde]

Lília_Tavares

LÍLIA TAVARES, in RIO DE DOZE ÁGUAS (Coisas de Ler, 2012)

 

[Anoiteceu a tarde]

 

Anoiteceu a tarde

pura de açucenas

procuro a transparência

da tua espera como a um abraço

que me enlace e leve

para o mais profundo de ti.

Batem as horas no sino da capela

que desconhece se é de verão ou de frio

que os sentires se vestem.

Balbucio um chamamento surdo

só o entardecer pode levar a água

deste cântico de coragem e espera.

Sei que é improvável o tocar

dos teus ombros na concavidade

do meu colo grato por me habitares,

sei que a ausência se fatiga, mas a tua não

e que são de cristal e algodão

o toque das nossas mãos.

Por uma noite, um tempo te vou esperar

pois a vida não tem horas

quando as nossas vozes roucas se procuram,

de tanto aguardar, as mãos se retorcem

para depois se acariciarem...

Não pode haver tempo nem pressa

neste livro que se permite ler devagar

pois é nas páginas em que o marcador adormece

que renasce das palavras o amor maior.

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