Há uma poesia

 

Há uma poesia numa rua deserta ao meio dia num bairro operário de Porto Alegre 

Há uma poesia numa pensão barata de madeira com poucos móveis e um radinho de pilha 

Há uma poesia num descampado amarelado pelo sol

Há uma poesia num cd que você não mais escuta 

Há uma poesia em retornar mesmo contra a razão sabendo desde o princípio que perdoaria seu amigo, amiga, irmã porque ela/ele é a única pessoa sensata que está disposta a te ouvir, sendo que os demais estão doentes, loucos, ocupados, mortos, perdidos, atados

Há uma poesia em assistir Woody Allen depois de um filme de Jim Carrey 

Há uma poesia em fechar um livro de poesia e dizer, “não presta”

Há uma poesia numa cidade bem ajeitada do interior

Há uma poesia num posto de gasolina à meia-noite, com uma loja de conveniência que serve café por um real

Há uma poesia em ouvir a chuva cair à noite e não ter nada pra fazer

Há uma poesia na nuvem

Há uma poesia no sol

Há uma poesia na lua

Há uma poesia no olho do gato

Há uma poesia em escrever poesia

Há uma poesia para cada coisa nomeada ou sem nome 

Há uma nova poesia, há uma poesia mais bonita

Há uma poesia sendo feita no futuro

E quando ela estiver pronta todos farão silêncio para ouvi-la 

Ela fará as folhas das árvores se mexerem


Davi Isaque Jardim

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