Escritas

Sexta-Feira

GabrielP412

É bonito vê-los andando,
a noite respirando pelas ruas,
as mesas de bar iluminadas
por risadas que ninguém percebe
que já viraram memória.

Casais de mãos dadas,
solteiros buscando o acaso,
gente que vive
como se o agora fosse eterno
e o amanhã nunca viesse.

Eu caminho de fora,
não pertenço a nenhum grupo,
olho o mundo como quem assiste
à vida acontecer nos outros.

Na sexta, saí.
Uma dose, um cigarro,
a bebida enjoou,
o ambiente também.

Algumas pessoas por perto,
mas carregavam sombras demais,
cansaços velhos
em corpos tão novos.

Fui ao espeto—
três espetinhos, duas Original,
um cone trufado,
mais um espeto,
pão de alho.
Conta salgada,
paladar satisfeito.
E uma moça bonita, chamativa,
com olhos de salina.

Depois, cigarro, batida,
quadra escura.
Outro cigarro.
Silêncio.
E Eu.

Ali, sozinho.´

Há muito tempo
não me alimento.
 

Dentro de mim
um vazio antigo. Tudo se movia no 
quarto sem janelas,
em uma casa desabitada.

Meu corpo estava ali,
sentado, fumando, vivendo—
mas o meu Eu, não.
Ele estava perdido
em algum lugar
daquela casa. Eu não me lembro bem.

Estou me estranhando.
 

A cidade vibra lá fora
como uma festa acesa,
e eu murchava por dentro
como uma vela já no fim.