Escritas

se a espera for dor, que doa bonito

Kelvis



se a ânsia por ti for agonia,
que me doa qual garra cravada em couro,
berro de boi no curral da espera,
faca de ponta fincada em mesa rude.
tenho mentes de sobra, mas já não fabulo,
eis-me inteiro, sem ardis ou alardes.
encontrar-te é colher fruta de tempo certo,
açúcar escorrendo em canto de boca,
sumo que escorre do caroço da sorte.
ontem, hoje, aurora e crepúsculo,
sou múltiplo e ainda assim teu,
em todas as veredas que trilho,
o chão reverbera teu nome.
volta, finca raiz em meu terreiro,
não desgarra do meu abraço-lavoura.
quero ser o que te encolhe no desmesurado,
beber tua seiva, devorar tua casca,
sentir na língua teu bagaço de sol e tempo.
vem pra mim, minha ânsia de rio antes da cheia,
se instala, finca estaca, acende o candeeiro,
faz morada nos meus dias e nas minhas noites,
porque de ti, amor,
sou sede insaciável.