Para minha amiga rosa (com glitter e cicatriz)
(ou: lembrança de uma flor que fumava esperança de tarde)
Ela chegou num dia que nem existia.
Usava um laço torto no cabelo e um olhar
que sabia mais segredos do que eu suportava.
Falava de amor como quem mastiga bala azeda.
Dizia “tô bem” com uma voz que gritava
“me abraça antes que eu me desfaça”.
Minha amiga rosa era cor-de-choque por fora
e tempestade engarrafada por dentro.
Ela colecionava cartinhas de tarô e ex-amores
como quem arquiva pequenos incêndios em caixinhas de fósforo.
Ria alto. Chorava baixo.
Desenhava meninas tristes no canto das agendas.
E me dizia, entre goles de refrigerante e rebeldia:
“ninguém entende… mas tudo bem, eu também não.”
Tinha dias em que virava filme francês.
Outros, virava silêncio.
Mas sempre — sempre — deixava cheiro de verniz e verão
nas páginas em branco da minha cabeça.
Ela foi embora numa tarde lilás,
sem aviso prévio, sem despedida.
Levou com ela uma parte minha
e deixou um gloss usado, uma playlist
e uma frase no espelho:
"Não esquece de ser bonita até quando estiver desmoronando."
Desde então, toda vez que ouço aquela música
ou vejo alguma coisa rosa com cara de caos,
eu sorrio torto e penso:
ela ainda vive em mim, com glitter e cicatriz.
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