Como fiquei invisível


Eu era só uma criança e, mesmo assim, vocês me machucaram. O que foi feito teve um efeito além do imaginável e moldou um novo adulto: quebrado.
A dor — muito além da física — criou chagas, sangrou… e sangra até hoje.
Todo o desespero se alicerçou não apenas nas ações cometidas, mas — e isso é o mais triste — na ausência delas: o silêncio, a omissão, a compactuação com o mal, a frieza, a humilhação. Isso me estilhaçou tanto quanto os espancamentos, o corpo machucado, as cicatrizes e os pedaços mutilados.
Quando se é responsável por outra vida, a missão é simples, ainda que exija esforço: proteger.
Senti medo, solidão, abandono emocional, exposição, terror, vergonha, culpa, desespero, desamparo. Nunca soube onde pisar. Sempre estive em meio a uma tempestade e nunca consegui ficar em pé. Nunca soube nada sobre mim: minhas possibilidades, minhas potencialidades, minha verdadeira personalidade.
Fui moldada para não existir, para ser um nada, para engolir todas as minhas palavras, como se elas não devessem ter efeito no mundo. E eu era uma criança: jovem demais para entender, mas grande demais para esquecer.
Sempre acreditei que o problema era eu. Sempre fugi das pessoas porque, na minha verdade distorcida, eu era podre demais para ser amada e desastrosa demais para não causar danos. De uma forma ou de outra, me fizeram acreditar que eu era o grande mal e o incômodo de todos ao meu redor.
Alguém tem ideia de quanto me feri? De quanto sangrei para conseguir um milionésimo de segundo de paz? Em quantos banheiros me machuquei para poder sair inteira? Quantas noites sem dormir, fumando um cigarro atrás do outro, pedindo a Deus que me levasse para um lugar onde eu pudesse, enfim, ser eu mesma?
Me sentia suja, indigna, imunda, pútrida e seca demais para tocar alguma alma.
Quantas vezes acordei desesperada, sem conseguir respirar, com o coração acelerado, vomitando — literalmente — meu desespero, pronta para lutar com as lembranças reais que invadiam meus sonhos? Nunca tive direito de sonhar em paz.
O mais perto que cheguei disso foi quando usei e abusei de substâncias, mas entorpecimento não é sinônimo de descanso.
Sempre achei que o problema era eu:
— Eu sentia demais.
— Chorava demais.
— Respirava demais.
— Falava demais.
— Queria demais.
— Existia demais.
Mas agora eu sei: eu só queria ser amada. Queria ser real. Queria ser de verdade.
Fui invadida. Me tocaram sem permissão. Arranharam minha alma e feriram meu corpo, ultrapassando o limite da minha mais profunda intimidade. E eu nunca disse nada. Minha privacidade foi arrancada. Fui desrespeitada, ignorada, violentada — no sentido mais amplo que essa palavra pode alcançar.
Nunca quis isso. Nunca quis o silêncio. Nunca quis o controle. Nunca quis o julgamento que vocês tanto lutaram para manter sobre mim.
Eu merecia ser criança. No sentido mais puro e ingênuo que isso pode significar.
Tive sorte de construir um mundo solitário, mas seguro, para sobreviver: minha imaginação fértil, meus cachorros, a natureza e a música — um mundo cheio de figuras míticas que eu mesma criei (como Osvald, o elefante branco com bolinhas azuis, que me levava à escola todas as manhãs).
Fiquei amiga da minha solidão, porque sabia que ela jamais me machucaria.
E decidi algo interessante, com quase 50 anos de idade:
Não vou mais me culpar.
Não vou mais sentir vergonha pelo que não posso mudar.
Não vou mais me diminuir para caber no que me ensinaram.
Fui programada para ser uma coisa, um objeto.
Decidi mudar essa programação.
Decidi, agora, que vou ser alguém que vive por mim — e não contra mim.
É curioso… Quando recebi meu diagnóstico, passei por vários especialistas. Dois deles tiveram reações que, de certa forma, dissiparam minhas dúvidas:
Um se recusou a iniciar o tratamento porque disse que minha história era forte demais — além das capacidades dele.
A outra precisou pausar uma das minhas falas e, com lágrimas nos olhos, me abraçou dizendo com ternura:
"Sinto muito."
Se ainda existia dúvida de que eu vivi abusos, ela se dissolveu ali.
O mais estranho é que a gente se afeiçoa tanto às próprias correntes que elas acabam virando parte da nossa personalidade.
Mas agora, eu só quero envelhecer em paz.
Na aventura da quietude intrigante do autoconhecimento.
Quero estar rodeada de pessoas boas, que me amem, me conheçam e me aceitem como eu sou.
Quero pegar no colo a criança que fui, mimá-la, amá-la, confortá-la — e dizer, com toda a convicção:
"Ninguém jamais vai te ferir de novo."

 

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