Escritas

SOBRE O CHÃO DO RIO GRANDE

José Cassais

Casas de madeira desgastadas pelo tempo 
Com sombras espalhando-se nos cantos do forro,
Sombras combatidas pela luz de uma janela pequena.

(quatro vidros retangulares e não muito limpos,
um deles trincado) 

E a pintura das paredes,
Tão antiga como todas as outras coisas, 
Entreabrindo sob a pele partida vestígios de pinturas 
Ainda mais antigas.

(paredes pintadas de cal colorida nestes tons azuis,
verdes e rosas esmaecidos; um painel delicado 
de pastéis impressionistas erguido
sob a mão de artista do tempo com pincéis de frio,
de umidade, do roçar de braços e costas humanas,
de calor de fogão a lenha, fumaça de lampião,
risos, conversas, gritos... esperas...)

Pobres casas de madeira enegrecida 
Plantadas neste solo do Rio Grande do Sul!

Madeira escura suportando o contato dos pregos enferrujados,
O metal lentamente desfazendo-se, 
Escorrendo pelas frestas o óxido do tempo.

Pobres casas habitadas por pessoas 
Semelhantes às suas casas, 
Entregando-se ao tempo sobre o chão do Rio Grande.