Dias de Verão
Agatha
Meados de dezembro, estava longe de casa fazia quase uma semana, indo de um lado para o outro entre praias e hotéis, hotéis que não eram luxuosos, mas eram frescos como a brisa que vinha do mar. Meus dias consistiam em achar algum lugar para ir e um restaurante para comer, e por mais bela que fossem todas aquelas águas cristalinas, as areias fofas e os ventos acolhedores, por mais saborosa que fosse a comida, já estava cansada da monotonia. Em algum momento tudo começou a ficar igual. Sentia saudade de dormir na minha própria cama, de ser acordada três horas da manhã por uma gatinha que não tinha filtro algum, de olhar pela janela e ver uma paisagem que misturava o verde com cores vibrantemente vivas. Queria ir para casa.
O fato de ser uma sulista branca como as nuvens de primavera não ajudava em nada. Pouco preparada para o sol abrasador do nordeste, meu protetor trinta e eu fomos como crianças ingênuas, acreditando que tudo ia dar certo, quando o fim nitidamente era um desastre. Tendo me queimado no primeiro dia, fui obrigada a comprar e usar um protetor sessenta, tinha que passar aquela pegajosidade a cada duas horas, o que, honestamente, foi a parte mais aborrecida da viagem.
Inesperadamente, todos os hotéis serviam cafés da manhã deliciosos, com frutas muito mais suculentas que as do sul, o que inclui as típicas bananas cozidas, as quais experimentei no primeiro dia e depois mantive bons metros de distância. O mais imprevisível foi encontrar um tipo de salsicha super condimentada, com um toque de coentro e muita, muita cebola, olhar para aquele prato só me fazia pensar como alguém conseguia comer algo tão forte logo após acordar.
A melhor parte do dia era notoriamente o mar. Depois de horas no sol, absorvendo seu calor como as areias do deserto, o momento de se dirigir aquelas águas ora turvas, ora serenas era mágico. O encontro começava com movimentos contidos e respirações repentinas, visto que deixar o calor acolhedor para o frio libertador é uma tarefa muito difícil. Entretanto, quanto mais se adentra naquela imensidão azul, mais fácil é aceitar seu abraço. Estar no mar me faz sentir pertencer a ele, com todas as ondas que lavam meus cabelos e levam minhas diversas preocupações, os mergulhos que por alguns segundos me fazem esquecer quem sou e as risadas que solto, que reverberam pela água.
É surpreendente como ocasionalmente mudamos de opinião. Um dia queria ir embora, voltar para o que já me era conhecido de cor, no outro, queria que aqueles dias durassem para sempre, queria ficar e desbravar um pouco mais aqueles lugares em que nunca estive, nadar nas praias que ainda não tinha visitado. Mas aqueles dias de verão chegariam ao fim em algum momento, e relembrar isso diariamente tornava tudo um pouco melancólico.
Para eternizar as memórias mais queridas, desejamos algo físico que nos faça lembrar delas facilmente, seja uma foto, uma roupa usada, uma carta recebida… já o meu vício para não esquecer os dias de sol, eram adornos e enfeites que vendedores passavam oferecendo. Meu acessório mais notório que consegui nesse passeio foi um brinco com uma grande flor-amarela de crochê que contrastava com as pequenas pedrinhas laranjas em seu centro. Esteja eu na praia ou não, usá-lo me traz muita alegria.
Por fim, meu último relato. Verão não seria verão se não houvesse uma momentânea paixão, e olhares bastam para ficar na memória de alguém. Depois de arrumar todas as cadeiras e posicionar os guarda-sóis, pude contemplar o arredor, era uma praia calma, pequenos pontos coloridos de cangas e pessoas podiam ser visto aqui e ali, de tempos em tempos alguma criança passava correndo, trazendo discretos sorrisos junto de suas risadas altas e contagiantes. E em minha frente, também aproveitando os dias sem preocupações com trabalhos, tarefas e provas, se encontrava um rapaz que formava uma linda pintura junto daquele céu azul. Sua característica pele morena combinava harmoniosamente com as suaves mechas onduladas que saiam de sua cabeça, em tons de marrom e caramelo. Seus olhos eram gentis, contornados por grossos cílios que protegiam uma íris de um assombroso verde. Altivo e belo, parecia alguém esculpido em mínimos detalhes por mãos talentosas e pacientes.
A magia começou quando nossos olhares se encontraram. Normalmente, um dos dois teria desviado o olhar, não constrangido ou assustado, mas naturalmente desviado, como sempre fazemos quando esbarramos com um par de olhos. Apesar disso, existem casos onde essa interação dura míseros segundos a mais, casos onde as duas pessoas ficam presas em um transe e não conseguem dispersar o contato. Eu estava hipnotizada pela presença dele, e ainda hoje gosto de pensar que ele também se sentia assim. As horas passavam, ondas vinham e iam, olhos se encontravam esporadicamente. Sentia a garganta fechar, cheia das palavras que queria proferir, um simples oi ou como vai, algo para começar o que poderia ter sido uma amizade, uma aventura ou uma vida inteira. Mas nada saiu de nenhum dos lados.
Nunca mais vi aquela praia, sequer lembro como se chamava, mas em meus pensamentos estão gravados cada traço do menino que nunca descobri o nome. Dois dias depois, enquanto voltava para casa, me pegava imaginando como era sua voz, o que ele gostava de fazer, qual era sua comida favorita, e muitas outras coisas que gostamos de saber quando alguém nos é querido.
São doces as memórias que tenho daqueles dias, e ao usar meus espalhafatosos, mas preciosos brincos amarelos, ainda consigo sentir o cheiro salgado do mar e os ventos imprevisíveis que o acompanhavam.
O fato de ser uma sulista branca como as nuvens de primavera não ajudava em nada. Pouco preparada para o sol abrasador do nordeste, meu protetor trinta e eu fomos como crianças ingênuas, acreditando que tudo ia dar certo, quando o fim nitidamente era um desastre. Tendo me queimado no primeiro dia, fui obrigada a comprar e usar um protetor sessenta, tinha que passar aquela pegajosidade a cada duas horas, o que, honestamente, foi a parte mais aborrecida da viagem.
Inesperadamente, todos os hotéis serviam cafés da manhã deliciosos, com frutas muito mais suculentas que as do sul, o que inclui as típicas bananas cozidas, as quais experimentei no primeiro dia e depois mantive bons metros de distância. O mais imprevisível foi encontrar um tipo de salsicha super condimentada, com um toque de coentro e muita, muita cebola, olhar para aquele prato só me fazia pensar como alguém conseguia comer algo tão forte logo após acordar.
A melhor parte do dia era notoriamente o mar. Depois de horas no sol, absorvendo seu calor como as areias do deserto, o momento de se dirigir aquelas águas ora turvas, ora serenas era mágico. O encontro começava com movimentos contidos e respirações repentinas, visto que deixar o calor acolhedor para o frio libertador é uma tarefa muito difícil. Entretanto, quanto mais se adentra naquela imensidão azul, mais fácil é aceitar seu abraço. Estar no mar me faz sentir pertencer a ele, com todas as ondas que lavam meus cabelos e levam minhas diversas preocupações, os mergulhos que por alguns segundos me fazem esquecer quem sou e as risadas que solto, que reverberam pela água.
É surpreendente como ocasionalmente mudamos de opinião. Um dia queria ir embora, voltar para o que já me era conhecido de cor, no outro, queria que aqueles dias durassem para sempre, queria ficar e desbravar um pouco mais aqueles lugares em que nunca estive, nadar nas praias que ainda não tinha visitado. Mas aqueles dias de verão chegariam ao fim em algum momento, e relembrar isso diariamente tornava tudo um pouco melancólico.
Para eternizar as memórias mais queridas, desejamos algo físico que nos faça lembrar delas facilmente, seja uma foto, uma roupa usada, uma carta recebida… já o meu vício para não esquecer os dias de sol, eram adornos e enfeites que vendedores passavam oferecendo. Meu acessório mais notório que consegui nesse passeio foi um brinco com uma grande flor-amarela de crochê que contrastava com as pequenas pedrinhas laranjas em seu centro. Esteja eu na praia ou não, usá-lo me traz muita alegria.
Por fim, meu último relato. Verão não seria verão se não houvesse uma momentânea paixão, e olhares bastam para ficar na memória de alguém. Depois de arrumar todas as cadeiras e posicionar os guarda-sóis, pude contemplar o arredor, era uma praia calma, pequenos pontos coloridos de cangas e pessoas podiam ser visto aqui e ali, de tempos em tempos alguma criança passava correndo, trazendo discretos sorrisos junto de suas risadas altas e contagiantes. E em minha frente, também aproveitando os dias sem preocupações com trabalhos, tarefas e provas, se encontrava um rapaz que formava uma linda pintura junto daquele céu azul. Sua característica pele morena combinava harmoniosamente com as suaves mechas onduladas que saiam de sua cabeça, em tons de marrom e caramelo. Seus olhos eram gentis, contornados por grossos cílios que protegiam uma íris de um assombroso verde. Altivo e belo, parecia alguém esculpido em mínimos detalhes por mãos talentosas e pacientes.
A magia começou quando nossos olhares se encontraram. Normalmente, um dos dois teria desviado o olhar, não constrangido ou assustado, mas naturalmente desviado, como sempre fazemos quando esbarramos com um par de olhos. Apesar disso, existem casos onde essa interação dura míseros segundos a mais, casos onde as duas pessoas ficam presas em um transe e não conseguem dispersar o contato. Eu estava hipnotizada pela presença dele, e ainda hoje gosto de pensar que ele também se sentia assim. As horas passavam, ondas vinham e iam, olhos se encontravam esporadicamente. Sentia a garganta fechar, cheia das palavras que queria proferir, um simples oi ou como vai, algo para começar o que poderia ter sido uma amizade, uma aventura ou uma vida inteira. Mas nada saiu de nenhum dos lados.
Nunca mais vi aquela praia, sequer lembro como se chamava, mas em meus pensamentos estão gravados cada traço do menino que nunca descobri o nome. Dois dias depois, enquanto voltava para casa, me pegava imaginando como era sua voz, o que ele gostava de fazer, qual era sua comida favorita, e muitas outras coisas que gostamos de saber quando alguém nos é querido.
São doces as memórias que tenho daqueles dias, e ao usar meus espalhafatosos, mas preciosos brincos amarelos, ainda consigo sentir o cheiro salgado do mar e os ventos imprevisíveis que o acompanhavam.
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