Tudo que eu sei sobre o mar
Bruno Miguel
Eu, que pouco sei sobre o mar, mal consigo descrevê-lo de outra forma além de poesia em versos – minha maneira de falar sobre o desconhecido, de divagar sem início, de parar sem encerrar.
Eu, que pouco sei sobre o mar, sei que a água é salgada, mas nunca entendi o porquê disto, tampouco a razão pela qual as ondas morrem na praia mas antes roubam as pegadas alheias.
Eu, que pouco sei sobre o mar, com cinco anos pensava que a cor d’água determinava seu humor; porque era algo tão simples que até as pedras na pulseira da minha mãe faziam.
Eu, que pouco sei sobre o mar, temia que em seu horizonte cada gota d’água fosse tão salgada quanto no raso, salgada como uma lágrima; e nossa lágrima, porque eu bem sabia que o choro do céu se distinguia na falta de sal. Minha mãe me tranquilizava dizendo: “se forem lágrimas, não serão suas, nem minhas, nem de qualquer outra pessoa que a gente ame”.
Eu, que pouco sei sobre o mar, via os navios quase caindo do mundo e rezava para que as pessoas que lá viviam parassem de chorar, na esperança de um dia o mar tornar-se doce, mesmo que isso significasse o fim do sal, dos salgadinhos e demais derivações.
Eu, que pouco sei sobre o mar, na mente odiava, na distância amava e na presença mergulhava no líquido inimigo do qual não se pode beber, apenas nadar. Quando via a espuma se espreguiçar na areia e traçar um risco de alvura por toda areia que beirava seu domínio, sentia medo.
Eu, que pouco sei sobre o mar, estranhava ver a vida marinha. Estranhava os crustáceos, os moluscos, corria das águas-vivas, do veneno fogo, e pensava que jamais poderíamos compartilhar o mar em harmonia, e que lástima seria, pois só havia céu, mar e terra — a última com suas próprias correntezas, ondas, profundezas e limites.
Eu, que pouco sei sobre o mar, achava a piscina contida era muito mais amigável, mas inacessível. O mar se apresentava como um abraço de imensidão, natural e ancestral, embora amaldiçoado pela mesma natureza das graças a ter uma correnteza incessável em cada movimento, nas brisas ou tempestades, um impulso de levar consigo algo além de passos e grãos de areia, roubar de seu fundo raso qualquer coisa em pé, fazer flutuar a vida alheia e ingênua.
Eu, que pouco sei sobre o mar, não sei nadar, mas aproveito o momento em que sinto o toque d’água correr em meu corpo, e na incapacidade de me esconder ou escapar, o frio vai lentamente se tornando calor, a ardência nos olhos vai cessando e vou me movendo como se soubesse nadar, mergulho como peixe, e sinto a água escorrendo por cada canto meu como se de fato, o mar inteiro fosse um choro, não mais como no medo de infância, mas como um prazer, um banho catártico, e a realização de que estranho seria se nós, que nascemos chorando, tivéssemos medo de chorar.
Eu, que pouco sei sobre o mar, sei que a água é salgada, mas nunca entendi o porquê disto, tampouco a razão pela qual as ondas morrem na praia mas antes roubam as pegadas alheias.
Eu, que pouco sei sobre o mar, com cinco anos pensava que a cor d’água determinava seu humor; porque era algo tão simples que até as pedras na pulseira da minha mãe faziam.
Eu, que pouco sei sobre o mar, temia que em seu horizonte cada gota d’água fosse tão salgada quanto no raso, salgada como uma lágrima; e nossa lágrima, porque eu bem sabia que o choro do céu se distinguia na falta de sal. Minha mãe me tranquilizava dizendo: “se forem lágrimas, não serão suas, nem minhas, nem de qualquer outra pessoa que a gente ame”.
Eu, que pouco sei sobre o mar, via os navios quase caindo do mundo e rezava para que as pessoas que lá viviam parassem de chorar, na esperança de um dia o mar tornar-se doce, mesmo que isso significasse o fim do sal, dos salgadinhos e demais derivações.
Eu, que pouco sei sobre o mar, na mente odiava, na distância amava e na presença mergulhava no líquido inimigo do qual não se pode beber, apenas nadar. Quando via a espuma se espreguiçar na areia e traçar um risco de alvura por toda areia que beirava seu domínio, sentia medo.
Eu, que pouco sei sobre o mar, estranhava ver a vida marinha. Estranhava os crustáceos, os moluscos, corria das águas-vivas, do veneno fogo, e pensava que jamais poderíamos compartilhar o mar em harmonia, e que lástima seria, pois só havia céu, mar e terra — a última com suas próprias correntezas, ondas, profundezas e limites.
Eu, que pouco sei sobre o mar, achava a piscina contida era muito mais amigável, mas inacessível. O mar se apresentava como um abraço de imensidão, natural e ancestral, embora amaldiçoado pela mesma natureza das graças a ter uma correnteza incessável em cada movimento, nas brisas ou tempestades, um impulso de levar consigo algo além de passos e grãos de areia, roubar de seu fundo raso qualquer coisa em pé, fazer flutuar a vida alheia e ingênua.
Eu, que pouco sei sobre o mar, não sei nadar, mas aproveito o momento em que sinto o toque d’água correr em meu corpo, e na incapacidade de me esconder ou escapar, o frio vai lentamente se tornando calor, a ardência nos olhos vai cessando e vou me movendo como se soubesse nadar, mergulho como peixe, e sinto a água escorrendo por cada canto meu como se de fato, o mar inteiro fosse um choro, não mais como no medo de infância, mas como um prazer, um banho catártico, e a realização de que estranho seria se nós, que nascemos chorando, tivéssemos medo de chorar.
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