Escritas

Não serei

Carlos M. Francisco
Não sei ser poeta

Não sei ser nada

Não sei o que escrevo

Nem o que quero dizer

Não sei ser homem

Nem o que esperam de mim

Não sei ser o inverso de ninguém.




Não sei como conversar

Não digo palavras belas 

Para deixar ouvidos felizes

Não sei escutar parvoíces

Nem sei estar no meio delas.




Não sei como outros conseguem 

Ser o que lhes mandam

Não sei como se encontram

Entre tontos que bradejam 

Na profunda multidão os vejo 

Filosofando bocejos

Não sei ver quem sejam. 




Não sei ver com os olhos de outro

Não sei ver pouco

Não sei como as pessoas 

Não conseguem ser

Não compreendo como esquecer

As bofetadas loucas

Saídas das mãos esvoaçantes. 




Não sei ser o começo

De um caminho destinado a não ter fim

Procurado por quem se perdeu

E não teve onde se encontrar




Não sei ser feliz

Se soubesse, o que faria eu com a felicidade

Nem comigo sei o que fazer

Se a felicidade me invadisse

Seria eu o homem mais triste do mundo

Por saber que estava desperdiçada em mim.




Não sei fingir estar louco

Nem dominar a voz da loucura

Não sei como arrumar

A minha vida em outro lugar

Não sei como viver

Não sei o que ser

Definitivamente não sei existir.