Escritas

Caminhando pela rua só

Carlos M. Francisco
Sei que quero sair pela rua

E caminhar sem parar

Ouvindo a minha voz

Pesada e sem vontade

Mas caminhando sei como sou

E sinto meu corpo movimentar-se

Esqueço a idade e de onde venho

Onde nasci e o que me tornei.

Dá-me a sede e pergunto porque saí

Deixando o amor para trás

E caminhei sem parar e sem rumo

Mas pergunto sempre, qual amor?

Estou só, penso só, caminho só

Onde está o amor que deveria sentir?

Onde estão os que deveria amar?

Ao meu lado não estão, caminho só

Ficaram no mesmo plano que o Sol

Adorando a luz e seu conforto

E os raios que dizem ele ter

Mas o Sol já passou por aqui

E deixou um vazio que se tornou escuro

É por onde eu caminho, por esse tempo ido

Remoendo o que ainda tenho por remoer.

Saí pela rua

Caminhando só, com a alma fechada

Rindo de mim próprio

E de todas as parvoíces pensadas

Demasiado bem pensadas e bastante profundas

Caminho pela rua para gastar os sapatos

E espero, tal como faço com eles

Desgastar também meus pensamentos

Pisá-los como se fossem as pedras

Irregulares, pequenas e quebradiças

Gosto de pisar e voltar a pisar

As pequenas pedras

Esmagando-as e vê-las tornarem-se pó

Como os meus pensamentos

Todo eles são quebradiços, desmembráveis 

Estáticos debaixo dos sapatos duros

Choro pelos meus pensamentos

Estão agora noutra rua

E eu… eu continuo caminhando

Só e pesado, por uma rua nova

E outros pensamentos nascem 

E outras pedras se desfazem

Debaixo dos meus sapatos

Esta é uma rua como a outra, penso eu

Cheia de pedras e pensamentos

Não consigo sair das ruas semelhantes.

Como os pensamentos aprisionados

As pedras se prendem nos sapatos 

E desgastam a dor que se vai sentindo

Nos nervos distendidos pelo corpo 

E é quando a mente pergunta tudo

E define as dúvidas como certezas

Afirmando aos pensamentos

Que a consciência é uma rua desconhecida

Vai-se caminhando por ela

Esperando encontrar quem nos diga

Estarmos no sítio certo

Sem a segurança de o saber

Na direcção vamos de olhos fechados

De pés firmes sigo rumo ao tempo

Procuro gente com capacidade para caminhar

Que compreenda minha vontade de os conhecer

No dia, na noite, entre as estrelas

Sobre as pequenas pedras desgastantes.