A vida é só uma rapariga que eu conheci
Carlos M. Francisco
A vida é só uma rapariga que eu conheci
E com quem bebi uns copos num bar
Enquanto esperava por outras mais acessíveis,
Sossegado num canto escuro e esquecido da sala.
Chegou vagarosa, mostrando as suas formas
Num desfile de quem se insinua a um desconhecido
Sem qualquer respeito pela presença
Do próximo homem humilde a ser testado.
No meio daquela escuridão apenas vi um vulto
Sem face distinta que me aquecesse o coração
E tudo me pareceu uma maldita encenação
Da qual eu não poderia fugir consciente,
Nem que o meu fim inesperado se aproximasse
Trazido pelo braço daquela estranha figura.
Ofereci-lhe um copo da melhor bebida disponível
Como um cavalheiro rendido a uma nova atracção
Mas que não procurou tenra companhia
Por não lhe ver os olhos nem as intenções,
Também não lhe ouvi agradecimentos
Nem satisfação por beber na minha companhia.
Tinha uma presença amarga e distante
E parecia procurar um refúgio seguro
No canto mais escuro e insignificante da sala
Onde poderia repousar o corpo cansado
Na escolha de um silêncio melancólico,
E quem seria eu para lhe dizer como estar
Num canto escuro de uma sala desinteressante.
Depois de algumas bebidas e sem temas de conversa
Entregou-me uma certa esperança com palavras
Sobre a sua existência para os homens que conhecera
E de como no fundo a julgavam desinteressante,
Nasceu nela um profundo desalento nos homens.
Sem temor, disse coisas cheias de meia verdade
Não chorar, e nunca se arrepender de nada
Não sentir dor nem alegria, assim se definiu ela
E então vislumbrei um leve sorriso de malícia,
Disse que para ela os homens são todos iguais
E bebe a malícia deles dentro de um copo cheio
De uma bebida sem qualquer gosto ou satisfação,
Dissolve dentro desse copo uma solução de eternidade
Para que os homens não a tenham, não da boca dela.
Não pude deixar de sentir pena da rapariga
Nem dos seus olhos tristes, que finalmente pude ver
Através do brilho que emanava do copo
Onde ela tinha acabado de dissolver a solução
Parecia verter pequenas lágrimas irregulares
Cada vez que bebia um pouco desse líquido,
A sua expressão revelava dor, os lábios mudavam a cor
De vermelho sangue para um negro morte preocupante
Quem a teria tratado tão mal, pensei eu
Olhando para o meu copo gasto e desamparado
Sem qualquer ponta de eternidade dentro dele.
Surgiram alguns sorrisos nos lábios dela
Mas continuava sem explicar porque estava ali
Sentada na mesma mesa que um homem inútil
Sem destino fácil, perdido para a história
Pensei que me pretendia levar a algum lado
Um sítio ainda mais escuro que aquele bar
De onde nunca ninguém volta nem se ouve falar.
Deixei que fosse ela a proferir as poucas palavras
Testemunhadas por aquela mesa e seus companheiros
Os copos de vidro, com mais marcas de sacrifício
Que o meu corpo e pensamentos nos anos de solidão
Essa sim, uma eternidade cravada em mim.
Estávamos destinados a ser companheiros de mesa
Por um dia, ou apenas algumas horas perdidas
Qualquer das circunstâncias seria aceite por ambos
Eu não ia a lugar nenhum e a vida também não
Vi isso escrito nos seus olhos descrentes.
Estava a sentir-me fraco, como que consumido
Pela vida e a intensidade da escuridão no seu corpo
Esta estranha rapariga sem desejos na alma
Perpetuava o descanso sentada à mesa de um bar
Esperando o tempo passar por ela em silêncio
Sentia-se no débil respirar a sua essência doente.
Certamente viu em mim uma falta de coragem
Para aceitar o mundo e a respectiva existência
Por compaixão, sentou-se e compreendeu o silêncio
A tenebrosidade estabelecida no canto da sala
E a necessidade urgente de entorpecer os pensamentos
Antes de perder a consciência num infinito de ilusões.
A vida é só uma rapariga com quem eu acabei por sonhar
E manter viva na memória durante anos seguidos
Sem lamentar o momento em que a vi sair
E não desejar sorte nas restantes noites sem ela
Sem suspirar por uma saudade eterna, esteja eu onde estiver
Rendido aos temerosos pensamentos inúteis e inconstantes
Em que a mente cedeu mais uma vez.
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