Escritas

Está tudo em ti

Carlos M. Francisco

Porque o tempo passa por ti

E tu não sentes.

Aprendeste a não sentir

É a tua forma de escapar ao resto do Universo

Sendo inocente 

Amando as coisas sem perguntar se elas

Querem ser amadas

Mesmo não sabendo, se é certo ou errado.

Se não sentes o tempo, então não sentes nada

Mas vives forte na esperança 

Depositas nela todo o corpo

Que julgas ser teu 

Tens um perfeito domínio da realidade 

E o desejo de nunca acabar

O tempo é um pormenor no teu destino. 

É impossível que sintas o que não está em ti

Mas recusas 

O tempo e o ar que nos permitem viver

Não vês neles uma oportunidade 

De te encontrares

Eles não têm sabor, nem valor

Estão afastados do momento e da satisfação.

Para ti 

O tempo é infortúnio 

Na imensa e soberba existência 

Do teu aclamado ser 

É isso que a memória te diz 

Enquanto absorves os gestos nos sorrisos

Ou num morder de lábio

E observas as mãos apenas um dia por ano

Enquanto decides o ideal de alguma coisa

O ideal de ti.

Tu sentes

O facto 

De as coisas inanimadas serem virtudes 

E o pouco ter obrigação de chegar a muito

Assim dormes

Iluminado por dentro

Dominado por pensamentos concretos

Enquanto tudo se desfaz no resto do Universo

Em terríveis pedaços disformes

De areia e terra, lama, pó e vento

Ao meu lado e ao teu lado

Está tudo em ti

Longe no tempo

A verter.