Escritas

Espantalho

Carlos M. Francisco

O espantalho corria pela planície, ou julgava eu vê-lo correr

Nos meus olhos de pequena semente deitada ao sol despida

Vestido corria como podia, rasgado e empalhado 

Tropeçando e rebolando nos trapos que se desfaziam

Camisa sem mangas, calça sem costura, chapéu de palha queimada.

Como homem de plantio que gosta de liberdade

Vive feliz no rés infinito do campo aplanado de manto dourado

Em correrias de pé descalço que o fazem sentir vivo

Mais vivo que o trigo que nasce na seara onde descansa

De braços estendidos para receber os raios de sol quente

Alegram-se os olhos de pano ao ver onde as sementes crescem

Brotam do chão, soltam-se para a vida arrumá-las numa colheita

Tudo acontece no silêncio entre o cantar dos pássaros

E a noite que vem esfriar o mar de cereais guardados com evidência.

Corre o espantalho cheio de vida perseguindo os pássaros

Monte acima, monte abaixo, num infrutífero esforço sem sorte

Frustrado por não ter asas, vai dando pequenos saltos

Sem conseguir alcançar por si mesmo um voo desejado

O universo esqueceu-se de lhe incutir o bom senso de não voar

Galopa imprudente sem cansaço procurando vencer as aves

Ou corre pela alegria de sentir o vento na palha e nos trapos.

Eu, e meus olhos de semente encostados à terra 

Crescemos junto dele aferrados na paisagem e abraço cada momento

Em que me deixa existir e ser mais uma das filhas do seu reino

Onde debaixo do céu azul nasce todas as manhãs um pouco de vida

Na seara gloriosa abraçada pelo corpo hirto de palha ressequida

Testemunha do ritual ajustado, cheio de esperança na chuva e no sol

Abrem as sementes os pequenos olhos aos raios dourados

Quando nada mais lhes resta crescem rumo ao azul do céu

Serve a seara a sua glória, serve a terra o repouso das sementes.