Escritas

infância

Henrique Alves de Souza
Eu tinha apenas poucos anos de idade,
Barro vermelho por baixo das unhas e,
Raízes de alguma coisa enroscada nos cabelos.
Édipo assassinado precocemente,
Gostaria de alcançar aquele tal sentimento oceânico.
Você me avistou rindo e dançando,
Como uma boa criança pagã.
Um querubim renascentista,
Asas vermelhas e coroa de beladona.
Pegue-me pelo braço,
Faça-me voar para longe de ceifeiros e forcas.
Eu queria dizer algo grande,
Usar as palavras para ilustrar o tamanho de tudo aquilo,
Mas você partiu para as montanhas do norte.
Belzebu é tão belo quanto dizem os pagãos?
Desde aquele dia,
Sinto a presença de algo sombrio,
Mas não encontro as palavras corretas ou incorretas.
Quando meu peito encontrar o teu,
E enfim minha cabeça repousar no céu da tua caixa torácica,
Deixe-me falecer toda minha angústia junto ao teu peito.
Permita-me narrar minha infância,
Assim como Homero narrou a fúria de Aquiles.
Deixe-me morrer em teu peito,
Talvez não por completo,
Apenas a parte que já não me cabe.
Príncipe das Arábias sauditas,
Diga-me se serei amado como foi Ulisses....
gostaria de ter dado dois ou quatro passos para trás,
mas eu estava com tanto medo de ser abandonado,
medo da solidão...
Em qual estação a solidão parte ?
Na primavera nascem os figos e romãs.
Quero cometer suicídio,
Ser velado na primavera.
Você me amará quando enfim a dor que preenche meu peito explodir?
Você retratará minha morte em aquarelas?
Gostaria de dizer que lhe amo,
Abraçar-lhe com as asas de quem nunca voou,
E dizer-lhe palavras inexistentes...
Mas cometerei suicídio,
E por mais que meus versos sejam belos,
Não há beleza alguma na escuridão das minhas artérias.
Só há beleza nas coisas claras?
Se ao menos eles me notassem,
Dissessem algo reconfortante...
Meu arcanjo de luz,
Ouvi dizer que de todos você  foi o que mais brilhou...
Beije-me enquanto há vida em minhas pupilas,
Pois sinto que a vida é uma agonia efêmera.
Tentando ir até você,
Mas a librina trouxe de volta minha depressão de infância.

Henry Alves