Escritas

NÍTIDO

rozzibrasil
Saber que se sabe demais 
do que o previsto no lugar 
que nunca será seu,

Ninguém parece contigo
Ninguém fala a sua língua
A despeito do idioma em comum

Sabe-se amargo
te mentem 
adulam por espanto

sentir-se sobrando.
perceber venenos 
circulando.

Não há onde reclamar. 
Da tela comprida e estreita
perdendo tudo em volta 
do robô que te espreita

Do cigarro que te enfiaram olhos adentro, 
e te proibiram viciado, peito roído, 
pulmão carcomido,

Coração aos pedaços
Naquela tela era sucesso
mergulho fundo no fracasso

E aquela porrada? 
embrulhada 
num sorriso foi o amigo que te deu

E te dói toda vez que ele fala 
que tudo bem 
você não entendeu
 
ele te perdoa
você não está altura de entender
gente branca com desenvoltura

E o mano que fez brincadeirinha, a mesma que fizeram com ele?  
ele sabe, só esquece: 
é inócuo quando se tem a cor da pele dele

Durante anos não via
Não lutava
Distraída, distraía

só comia e bebia 
eu era uma pessoa feliz pessoa infeliz


Hoje, me sinto cansada, 
tem horas que não quero dizer nada, nem ver ninguém. 
Preto sem família não tem colo 
não tem lugar pra chorar. 
É tudo dentro, tudo fora, 
foda sem gozar. 

E preta vai, sem parar

- Quantos anos tu tem pretinha?
- Olha pra trás, veja o que eu fiz, 
vê se consegue contar

Preta sem família não pode parar, 
não tem colo pra chorar 
Por isso a gente não morre
 
ouve o que nos mata
houve o que nos mata
há o que nos mate

A gente não morre
se sente atingido
A gente morre a cada pedido de desculpa 
nitidamente fingido.


25 de maio, Dia Mundial de África