Escritas

As coisas

Irineu Magalhães

-As coisas-

Acompanho-o com os olhos embaralhados descendoas escadas, pernas e pés tropeçam-se, está bêbado como sempre. Gordo, caminhameio sem jeito. Seus olhos emitem qualquer coisa de desespero, de uma procuradesenfreada por uma coisa que não conhece, acho que procuro também. Ele deixa ocopo de uísque sobre a mesa e some pela porta da frente. Eu fico a observar ocopo. Do lado tem uma revista em quadrinhos, é da minha filha, ela não está aqui,foi lá para as bandas do norte, disse que ia procurar alguma coisa, Angélica temolhos mortos como os da mãe. Olho para a porta esperando que a violência domundo entre por ela, que varra nossas vidas infelizes, e que uma mulher de risoroxo, com olhos de tempestade entre sorridente e me diga que achou, mas quesuma, não volte mais. Também tenho que ir, amanhã não me lembrarei mais daquelesorriso sombrio e do quanto éramos felizes, tem coisas que não vale a penaficar lembrando. A noite tem qualquer coisa de eternidade.

(Irineu Magalhães)