Escritas

NO VAI E VEM DO TEMPO

dantenegro
I

Parece amada minha que te vi ontem

Medindo a lucidez dessa distância

Ao temperar desejo na inconstância

E a linha que nos une foi uma ponte

 

Você surgiu na imagem do horizonte

Mostrou-me a mais perfeita relevância

Do amor no tempo pleno da mudança

Nem pude imaginar que era o bastante

 

E assim grudei em ti tal um chiclete

Foi muito mais além do que peguete

No amor ou na amizade tanto faz

 

Na pescaria do tempo da vontade

Fui menino sem dizer minha idade

Você tão pouco nem ficou pra trás

 
 

II

 

Na álgebra do amor e geometria plena

Tentei arriscar um cálculo preciso

Ainda que parecia meio indeciso

Conectei meu pensar a sua antena

 

Você raiz quadrada de mim mesmo

Não quis admitir os planos traçados

Na bissetriz dos corpos enlaçados 

Parecíamos que estávamos à esmo

 

Mas somente era uma bela equação

Você quis logo me ver pelo avesso

Parecendo ter fim sem um começo

Engano achar que árbitro é a razão

 

Eu bem sei que ao contrário é nossa conta

A empilhar dominó que se desmonta

 

 III

 

 Cavalo doido todo meu desejo

no frenesi do tempo percorrido

eu e você nos vemos divididos

nossa contradança é pleno realejo

 

posso te ver além do que te vejo

na aparição que revelou cupido

natural sem enfim ficar despido

desses arcos e flechas que manejo

 

vivendo a interação do nosso orgasmo

no pleno universo entre nós dois

ante a forte contração de um espasmo

 

então sou um puro sangue que te ama

relincho com a minha própria voz

na imensidão do palco em nossa cama

 

 

Rio, em 10 nov 19