Incêndio

Na ânsia

de sentir-se notado,

o descomedido e algoz prometido,

ateia fogo na casa.


Ela só pensa em salvar seu gato

e o pobre pássaro macróbio

que padece na gaiola.

 
As chamas alvoroçadas

parecem dançar,

dar saltos sucessivos

e depois se dissipam,

como fumo escuro,

combustão dos versos tatuados de antigos livros.

 
Ela abarca a gaiola do pássaro de penas parcas

enquanto

abraça o bichano de bigode queimado

e coração agitado.

 
Situações improváveis

que não rendem sequer uma mísera metáfora

para se refletir

sobre as perdas ordinárias dos objetos,

essas coisas

suscetíveis à destruição.

 
Bom mesmo

seria perder a memória,

apagar da mente o incêndio que a persegue todas as noites,

atear fogo às lembranças

do que um dia foi casa.

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