Américo
pedrofego
Cata-Vento
É bem no alto que começa esta história, onde a cabeça quase toca o céu, onde respirar significa pensar, pensar bem devagar. Onde pensar significa adormecer e escutar o som do bater do coração. É bem aqui, sentado, que conto este conto, para o espalhar ao vento, para que todos os cata-ventos o ouçam…
O monte era tão alto que por vezes tocava as nuvens. Daqui tudo se via, nada se escondia, tudo o que espreitava se sentia. Do pequeno focinho do gato ao longo e apurado rosto da raposa. Nada escapava ao olhar do cata-vento. Lá do cimo, observava com toda a calma do mundo e refletia sobre tudo o que via. Aquela chapa de aço, lançada ao vento, brilhava como um pequeno farol. Quando o sol se erguia, o cata-vento era o primeiro a dar sinal. Reluzente, ofuscava o primeiro olhar da manhã e a par desse brilho, os sinos, por sua vez, enchiam o primeiro ar. O som replicava por entre as ruas estreitas, o badalar estridente prosseguia como uma nuvem levada pelo vento, desde o adro da igreja até à escola primária. Aos poucos começavam a surgir outros sons, rangeres de portas, janelas que se soltavam, luzes que se acendiam e se apagavam, miares de gatos, ladrares de cães, até que, por magia, as grandes portas das casas se abriam: meninos e meninas saiam ao mesmo tempo, com a precisão de um relógio suíço. Em fila indiana enchiam as ruas magras. As mochilas cobriam as costas de cada menino e faziam pender cada cabeça para a frente. De queixos virados para o chão e de mãos nos bolsos, as crianças subiam, subiam por entre os paralelos da calçada, ainda húmidos da orvalhada da manhã. As pernas eram pequeninas, cada pé avançava com segurança duas ou três pedras, mas antes de os pousar verificavam atentamente o percurso do formigueiro que avançava determinado por entre os sulcos do granito. A par com as formigas, andavam os escaravelhos que se encostavam às soleiras das portas, deixando passar aquela procissão de sapatos. E, no meio de todos aqueles pés, havia uns que pertenciam a umas pernas ainda mais curtas que as demais, naturalmente ficavam sempre para trás. Eram as últimas a chegar ao muro da escola. Aí paravam, estáticas esperavam até que entrasse o penúltimo menino. Aqueles sapatos enraizavam por segundos, por vezes por minutos e petrificados esperavam, esperavam… Até que, quando a porta batia com o trinco, um pé avançava devagar puxando pelo outro. Aos poucos, iniciavam movimentos como se estivessem a aprender a andar outra vez. E em passos cada vez mais acelerados mas ainda torpes, avançavam em direcção à porta principal. Aí paravam e, ao de leve, o pé direito, chutava a porta, como que verificando o seu estado, estava encostada! Naqueles minutos de espera, Américo olhava para cima e admirava o sino que pendia bem junto à padieira da porta. Um fio azul saía do pêndulo, furava a parede, atravessava o corredor e abraçava as rugas da mão do (a) contínuo (a). Quando o ponteiro dos minutos alinhava verticalmente, aquela senhora puxava com toda a força pelo cordel de cor. O sino replicava os últimos três sons. As pernas do menino iniciavam a marcha, dirigiam-se para a porta número seis, a todo o vapor. E assim chegava, sem ar, com gotículas no rosto, como se de um estafeta se tratasse, que deu tudo por tudo para encurtar o tempo naqueles milésimos de segundo. Tinha de ser o último a entrar na sala de aula, mas não podia ter falta. O professor apenas tolerava alguns segundos depois do último som. Américo entrou!
É bem no alto que começa esta história, onde a cabeça quase toca o céu, onde respirar significa pensar, pensar bem devagar. Onde pensar significa adormecer e escutar o som do bater do coração. É bem aqui, sentado, que conto este conto, para o espalhar ao vento, para que todos os cata-ventos o ouçam…
O monte era tão alto que por vezes tocava as nuvens. Daqui tudo se via, nada se escondia, tudo o que espreitava se sentia. Do pequeno focinho do gato ao longo e apurado rosto da raposa. Nada escapava ao olhar do cata-vento. Lá do cimo, observava com toda a calma do mundo e refletia sobre tudo o que via. Aquela chapa de aço, lançada ao vento, brilhava como um pequeno farol. Quando o sol se erguia, o cata-vento era o primeiro a dar sinal. Reluzente, ofuscava o primeiro olhar da manhã e a par desse brilho, os sinos, por sua vez, enchiam o primeiro ar. O som replicava por entre as ruas estreitas, o badalar estridente prosseguia como uma nuvem levada pelo vento, desde o adro da igreja até à escola primária. Aos poucos começavam a surgir outros sons, rangeres de portas, janelas que se soltavam, luzes que se acendiam e se apagavam, miares de gatos, ladrares de cães, até que, por magia, as grandes portas das casas se abriam: meninos e meninas saiam ao mesmo tempo, com a precisão de um relógio suíço. Em fila indiana enchiam as ruas magras. As mochilas cobriam as costas de cada menino e faziam pender cada cabeça para a frente. De queixos virados para o chão e de mãos nos bolsos, as crianças subiam, subiam por entre os paralelos da calçada, ainda húmidos da orvalhada da manhã. As pernas eram pequeninas, cada pé avançava com segurança duas ou três pedras, mas antes de os pousar verificavam atentamente o percurso do formigueiro que avançava determinado por entre os sulcos do granito. A par com as formigas, andavam os escaravelhos que se encostavam às soleiras das portas, deixando passar aquela procissão de sapatos. E, no meio de todos aqueles pés, havia uns que pertenciam a umas pernas ainda mais curtas que as demais, naturalmente ficavam sempre para trás. Eram as últimas a chegar ao muro da escola. Aí paravam, estáticas esperavam até que entrasse o penúltimo menino. Aqueles sapatos enraizavam por segundos, por vezes por minutos e petrificados esperavam, esperavam… Até que, quando a porta batia com o trinco, um pé avançava devagar puxando pelo outro. Aos poucos, iniciavam movimentos como se estivessem a aprender a andar outra vez. E em passos cada vez mais acelerados mas ainda torpes, avançavam em direcção à porta principal. Aí paravam e, ao de leve, o pé direito, chutava a porta, como que verificando o seu estado, estava encostada! Naqueles minutos de espera, Américo olhava para cima e admirava o sino que pendia bem junto à padieira da porta. Um fio azul saía do pêndulo, furava a parede, atravessava o corredor e abraçava as rugas da mão do (a) contínuo (a). Quando o ponteiro dos minutos alinhava verticalmente, aquela senhora puxava com toda a força pelo cordel de cor. O sino replicava os últimos três sons. As pernas do menino iniciavam a marcha, dirigiam-se para a porta número seis, a todo o vapor. E assim chegava, sem ar, com gotículas no rosto, como se de um estafeta se tratasse, que deu tudo por tudo para encurtar o tempo naqueles milésimos de segundo. Tinha de ser o último a entrar na sala de aula, mas não podia ter falta. O professor apenas tolerava alguns segundos depois do último som. Américo entrou!
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