Escritas

O Presente Efémero

Paulo Jorge LG



É verdade, comovo-me e sensibilizo-me tanto com as fotos antigas como estar em sítios ou lugares históricos, transporto-me para as épocas em questão, com a mesma facilidade como quando a ouvir as minhas músicas idílicas, sinto-me em casa no meio daqueles espectros que vagueiam perdidos no tempo, e encarno as suas mágoas ou mais propriamente dito as minhas próprias mágoas neles reflectidos, desta maneira mitigadas nas minhas ou deles, lágrimas choradas, hoje ou outrora derramadas.

Já repararam que a nossa vida resume-se ao fim ao cabo, ao presente corrente e contínuo que sucumbe em instantâneos efémeros, o momento que passou desaparece para sempre impreterivelmente no passado longínquo, e o futuro incerto como tal nunca existe precocemente, só se realiza e apenas se consome em presente activo para desvanecer novamente na história passada.

O Universo em si não tem memórias nem poderes adivinhatórios, essa função foi-nos delegada a nós como seres conscientes, somos nós parte integrante do Cosmos que culturalmente guardamos o passado e através da imaginação, prescrevemos o futuro que soçobra aos nossos pés.

Logo se o Universo é o Corpo físico, nós somos a sua própria Alma, numa dualidade semiótica e biunívoca.

O sentido da vida apesar de não parecer é essencialmente compreender apenas e literalmente isso.

Sendo assim a minha, nossa vida cumpriu-se plenamente ao apreendermos a relatividade intrínseca dos factos irreais materializados um dia, mas prematuramente condenados à etérea extinção assintomática.

Tudo o resto que gira à nossa volta é assim veramente acessório espiritualmente, sendo que materialmente somos ainda muito reptilianamente cerebrais, sobrepondo em demasia os instintos primários, e quanto a isso não há nada a fazer entretanto, temos de sofrer com essas carências libidinosas quotidianas e mundanas, juntando a esse descontentamento a busca incessante da enigmática paz existencial entretanto mil vezes julgada alcançada e arrumada, tão custosamente, dolorosamente e introspectivamente vivida.

A amargura existencial da Humanidade vem ao de cimo, com o entendimento da sua irrelevância infinita e o fim inequívoco da sua viagem interior, que lhe possibilitou o conhecimento da transcendência da sua verdade induzida, mergulhando nas profundezas do indizível metafisico, e que tão poucos ousaram contemplar e perscrutar.


Lx, 18-6-2013

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