Escritas

Crescem flores dentro de mim

deepthoughs_biaa
Acordo, sempre ofegante, em busca de ar, um desejo, aparentemente, recusado.

Parece ser castigo, o oxigénio é grátis, mas, para mim, tudo tem um preço demasiado caro. A minha vida é um milagre, eu sou um milagre, pelo menos é o que me dizem: as enfermeiras dizem-mo, porque é a função delas, e os meus pais tentam, como se compreende, minimizar a dor de quando me perderem, acreditando que “A esperança é a última a morrer “.

Se estou a ser honesta, a esperança, na minha opinião, é só algo inventado por nós para oprimir a dor que sentimos, é aquela mentira que conforta, durante algum tempo, até a realidade bater suavemente à porta. Esperança, essa crença que devia ser inabalável…

Já aceitei há bastante tempo a minha condição, sei que a morte é inevitável, porém nunca pensei ir tão cedo. De facto, todos nós queremos mais tempo, quando sabemos que este está a chegar ao fim, eu não ia ser exceção. Na verdade, penso, muitas vezes, no tempo, imagino-o como um homem alto, cabelo castanho aos caracóis, com grandes óculos, sempre com pressa para chegar a algum sítio.

Isto somos nós na terra, nunca paramos para apreciar aquela flor solitária no meio do jardim, nunca paramos para ver o lindo céu que parece ter sido pintado para nós. Acredito que somos egoístas e só queremos mais tempo, mas para quê? Para vivermos na rotina, para ignorar tudo o que pode haver de bom à nossa volta, para não darmos aquele abraço a quem nós amamos, para vivermos uma vida imaginada que nunca vai acontecer. A vida, afinal, também se faz de paradoxos que, se calhar, temos de assumir como imperdíveis desafios em busca de nós.

Eu quero mais tempo para ver um último por do sol, para ver as flores de cerejeira nascerem uma última vez, quero- o para correr num campo sem fim. Mas sei que não o tenho. É assim que eu penso na morte: um vulto que vem colher a minha alma e plantá-la num sítio bonito. Passamos a maior parte do tempo a temê-la, porventura sem qualquer necessidade. A morte é a garantia de que vivemos e, como se sabe, a vida é efémera, é como as flores, que crescem, vivem até que as suas pétalas caem e morrem. Não podemos viver para sempre: se tivéssemos essa possibilidade, iríamos descredibilizar tudo à nossa volta, visto que o prazo e os dias contados são o nosso incentivo de todas as manhãs, são o lembrete de que, daqui a uns anos, semanas, dias, não estaremos cá.

Crescem flores dentro de mim, grandes girassóis, completam os meus pulmões, crescem e crescem, eu deixo-me ir com eles… Parecem um paraíso sem fim, corro atrás daquele último, bem lá no fundo, corro e deixo tudo para trás.

Cada vez me sinto mais livre, leve, fluo com o vento, brevemente serei uma brisa no ar, serei a borboleta mais bonita num jardim, serei a flor que irão buscar para levar a alguém, serei o amor, a essência, a pintora dos vossos céus.

Quando olho para trás, desde o diagnóstico que sugou a felicidade de todos à minha volta, sinto-me grata por isto chegar ao fim, embora reconheça que vai ser uma dor sem fim para os meus pais e amigos. Os pais não deviam enterrar os seus filhos, tal não parece respeitar a lei da vida, mas estamos somente a contrariar as probabilidades e a suposta ordem natural que a vida deve seguir. 

Apesar de todo um processo complexo, finalmente ficarei livre de todos estes fios, preocupações e tristezas. Serei tudo o que alguma vez quis no outro lado. Não tem de ser necessariamente o meu fim, apenas será o fim da minha vida neste corpo, não da minha alma, a minha luz prevalecerá noutro sítio qualquer.

Finalmente poderei correr, sem ficar sem ar, poderei respirar todas as intemporais essências que congreguei em mim, por isso as flores crescerão dentro de mim e a o meu jardim estará completo.

Deixo-me ir... Deixo tudo, sinto-me leve, não sinto dor, só sinto gratidão. Abraço o vulto que tanto tempo dediquei a imaginar e percebo que a morte é uma espécie de brisa que vem e leva as pétalas caídas do chão. Se assim é, entrego-me a ti, leva-me até mim. 

 O meu pó começa a levemente a espalhar-se... Sinto-me a polvilhar, como açúcar baunilhado, aquele efémero girassol do meu jardim.