Escritas

Valdeci de Andrade Gomes

navegantes
A casa de taipa adormece em Guamaré.
De madeira, cheia de sombras verdes.
Estrelas através do crepúsculo na maré.
Sonhos de pescadores seguros nas paredes.
Nas tábuas de um aparador desbotado,
humildes pratos repousam como amigos.
Uma rede, com cores de um tempo passado,
Estende-se perto do colchões antigos
Há nove crianças, almas jogadas ao vento.
O fogão de lenha com chamas dos trópicos,
Curva-se diante do teto sem mantimento.
Em rezas de joelhos para Santa Conceição
E lá fora, redemoinhos de poeira dançam.
No céu, os ventos, as dunas, o coração.
Na sombra, as ondas do mar soluçam.
II
Um homem no mar. Desde criança marinheiro,
Seu corpo se lança na batalha rumo ao acaso.
Na máquina do Mundo, ele deve ir primeiro
seus filhos estão com fome, sem atraso.
A água sobe os degraus da ventura humana,
Sozinho, governa seu barco com quatro velas.
A mulher em casa, costurando a lona insana,
Remontando as redes, prepara sob as estrelas.
Observa a lareira onde o caldo de peixe ferve.
Crianças dormem, a fome é um injusto castigo.
O servo quebra as ondas que a vida lhe serve.
Ventos tristes respiram sem receio do perigo.
Trabalho árduo! tudo está frio; nada brilha.
No alto mar, entre os olhares da esperança,
Procura da boa pesca no dilúvio da maravilha,
movimento, caprichoso, sempre de mudança.
Labirinto das águas, há um ponto de fertilidade
De peixes prateados onde o mar hospedava.
Caminho do alvorecer de tanta adversidade
Nesse sertão iluminado o Sol descansava.
O refresco na chuva e na névoa, em dezembro,
Conhece este ponto no deserto em movimento,
Combina as manobras certas sem assombro?
É necessário calcular a maré e o vento!
Cobras venenosas ao longo dos córregos,
E horrorizam o barco amedrontado.
O abismo tem caminhos com perigos cegos.
Pensa em Valdeci quando enfrenta o mar irado.
A mulher chorando o chama em pensamentos
Cruzam a noite, os pássaros em aposentos.
III
Ela sonha. – Canta o cardeal do nordeste.
Seus filhos descalços no verão determinado.
Não há pão. Comemos mumgunzá do agreste.
Deus, o vento rugiu como um metal forjado.
Constelações, bailarinas do sertão peregrino
Testemunho, em nome de Jesus crucificado,
Dançarina alegre é a hora de rir, espírito divino.
Sob os olhos iluminados do lobo armado.
Na hora da meia-noite, o ladrão misterioso,
Velado na sombra, chuva, já postos em cilada.
Tomam a face do pobre marinheiro furioso.
De repente, as dunas veem a dama desejada.
Horror! O homem uiva, voz humana extinta.
O edifício da bondade que mergulha, afunda.
Ele sente o abismo abaixo dele, levanta.
Rumo ao porto de Santos onde a luz abunda.
Essas visões tristes perturbam seu coração.
Valdeci chora com um adeus a embarcação.
IV
Foge para Macau, com um grito e zombando
O indesejável ciúme, entre o amor em pranto,
O oceano a assusta e memórias vai lançando.
Na mente: marinheiro, o mar chorou tanto.
Levado pela raiva das ondas; pelo ódio
Com peixeira, o sangue na artéria, fato eterno.
O relógio bate frio, joga as horas no mistério,
Gotejando o tempo, clima, verão, inverno.
E cada batida no universo, cometas trêmulos ,
Abrem a ferida do sagrado cadáver materno.
De um lado, os berços e, do outro, túmulos.
No caminho árduo das mentes sem governo.
V
Senhor da morte, Pescador de almas!
braços gelados de sua mãe que partiu,
Navegante, filha do sertão, sem palmas.
Oh caos! coração, sangue, Deus permitiu.
Pior que a prisão das ondas é o desatino.
A água salgada cura maus pensamentos.
Engano em figura de paz, manda o assassino.
Da felicidade ao mundo de maus elementos.
O vento destrói e põe por terra doces ilusões.
injustiça, desamparada, foge atormentada.
O céu se revolta nesta hora de opressões.
Enfrenta este mar de sofrimentos, trovoada.
Os abismos onde nenhuma estrela brilha,
Escudo da luz divina na fronte marítima
Acolhe um fraco humano que se humilha.
Corre a esperança na entranha da vítima.