<a href=https://www.afonsocelso.com/contos/>A carta</a>
afonso123
Olá!
Meu nome era Antônio de Souza Campos, mas todo mundo me chamava de Tom. Tinha doze anos quando fui embora.
O meu grande sonho era ser jogador de futebol. Ah, como eu queria ser um craque dos gramados! Ficava imaginando milhares de pessoas gritando o meu nome após um belo gol de bicicleta.
O meu pai me apoiava em tudo. Minha mãe não ligava muito e preferia que eu fosse médico. Ela dizia que era a profissão mais próxima do sacerdócio que ela conhecia. Naquela época eu não entendia direito o que ela queria dizer, mas, hoje, eu entendo e acho que ela tinha razão. Ela era professora do curso primário, como se chamava no meu tempo e tinha um jeito muito especial de lidar com as crianças.
Uma vez, quando estávamos só nós dois em casa, ela me confessou o seu grande sonho que, infelizmente, não conseguiu realizar: gostaria de ter sido médica mas ela não teve oportunidade de estudar para conseguir entrar em uma faculdade e, ademais, casou muito cedo com meu pai e teve que trabalhar logo.
Voltando ao meu sonho, eu não perdia um jogo aos domingos. Não torcia por nenhum time em específico, eu gostava de ver as jogadas dos craques, os lances dos gols, mas, o que me fascinava mesmo era o grito apaixonado das torcidas, qualquer uma.
O meu pai, que se chamava Alberto Campos, não era um homem rico, pelo contrário, era funcionário de uma companhia ferroviária, ganhava pouco, mas, mesmo assim, conseguiu me matricular em uma escolinha de futebol onde eu aprimorava os fundamentos do futebol, tais como, o passe, o chute de esquerda (eu era destro e o meu chute de esquerda não era lá essas coisas), o cabeceio, etc. Quem entende de futebol sabe do que eu estou falando.
Eram três dias por semana e eu esperava ansiosamente que os intervalos entre uma aula e outra passassem rápido. O professor dizia que eu teria futuro, o problema era que ele não sabia prever o futuro.
Foi justamente em um dos dias de minha aula de futebol que aquele carro apareceu em alta velocidade.
Puxa vida, foi tão rápido!
O engraçado foi que eu não senti nada. Fiquei um pouco zonzo, sem entender o que tinha acontecido e, depois, quando eu me vi deitado no asfalto com todo aquele sangue saindo da minha cabeça bateu um pouco de desespero. Mas foi por pouco tempo.
Logo eles chegaram. Sorriam para mim e me estendiam a mão mostrando um caminho bastante iluminado. Parecia uma espécie de túnel e eu não senti medo em nenhum momento. É verdade que eu fiquei triste quando olhei para trás e vi meu pai chorando, desesperado, abraçado ao meu corpo já sem vida. Não gosto nem de me lembrar! Coitado do meu pai! Nunca conseguiu assimilar o golpe, afinal, eu era filho único e ele tinha certeza de que me veria jogando futebol pelos grandes times do país.
A minha mãe, então, – o nome dela era Adelaide – não suportou a dor e em pouco tempo foi acometida por uma doença fatal e se foi também. Agora o meu pai tem uma nova companheira e está se sentindo melhor, mas isso depois de quase vinte anos. Eu fiquei muito feliz quando ele se casou de novo e minha mãe também.
Bem, eu estou contando tudo isso pra vocês porque, recentemente, eu tive uma excelente notícia: um anjo me informou que, em pouco tempo, eu vou reencarnar. É claro que eu perguntei onde seria, mas ele não quis me dizer, disse que era proibido. Disse também que eu tenho uma missão a cumprir e que havia uma família que estava precisando de um menino, assim como eu.
Fiquei muito contente com essa notícia, por isso, resolvi escrever esta carta.
Será que, finalmente, vou conseguir realizar o meu sonho de ser jogador de futebol?
Bem, estão me chamando, acho que chegou a hora.
Vejo vocês por aí.
Até breve, então!
Assinado: Tom
P.S: Digam ao meu pai que ele não precisa chorar, afinal, estou voltando para perto dele.
Honório dobrou a carta cuidadosamente e, sem dizer uma única palavra olhou para as pessoas em volta da mesa. À sua frente, visivelmente emocionado, e sem poder impedir que algumas lágrimas rolassem por seu rosto, um homem chorava, mas era de alegria.
Seu nome era Alberto Campos.
Fonte: www.afonsocelso.com
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