Comoções
Paulo Jorge LG
Comovo-me com música inspirada,
No meu mais intimo recanto,
Adoça-me a alma exaltada,
Perdida em profundo espanto.
Comovo-me com rostos sorridentes,
Abençoados de áureos espíritos,
De bondade inapta eloquentes,
Exorcizando males prescritos.
Comovo-me com as gotas da chuva,
A chapinharem na poça do beiral,
Assentam como uma luva,
A cuidar-me do roseiral.
Comovo-me com o fantástico,
Das histórias vãs do cinema,
Senti-las no meu âmago acromático,
Desfazendo o meu maior dilema.
Comovo-me com a realidade,
Por ser apenas minha,
Para toda a posteridade,
Como me convinha.
Comovo-me hoje com o anteontem,
Estéril e senil inconsequente,
Prostrados todos pressentem,
O vil futuro incongruente.
Comovo-me com o sentido da vida,
Por não conseguir achar nenhum,
Sem qualquer relevância tida,
Sem almejar sentimento algum.
Comovo-me com a partida alheia,
E os beijos de despedida,
Esquecido luto preso na teia,
Da minha alma apátrida.
Comovo-me quando durmo,
Fingindo estar morto,
Quieto e aprumado,
Sem porto.
Lx, 25-2-2013
Português
English
Español