Navios Ancorados
António Andante ( Ó, Serôdia!)
Toda a minha vida é um porto
de onde não se parte
sou um navio fundeado
que desconhece o mar-alto
meu navio está ancorado na doca seca
as amarras prendem-me
cingem-me ao solo árido
a terra enxuta abriu-se e engoliu o mar caudaloso
o grande oceano é agora um fiozinho de água tímida
no meu país já não há marinheiros
os nautas navegam em lágrimas salgadas
e brincam em banheiras transbordantes de água
com barquinhos de borracha
simulando batalhas navais épicas
as cartas de navegação
servem agora para forrar fundos de gavetas
os navios esqueléticos e enferrujados
definham e envergonhados sonham com viagens transoceânicas
alguns apontam a proa para as estrelas
e rogam aos astros
que a terra se abra e que a água brote
preenchendo e enchendo os sedentos mares
é má sina para um navio morrer em terra
carcomido e obsoleto
navio foi feito para arrostar as tormentas
e domar o mar encapelado
antes afundar e ficar sepultado no mar profundo
que ter por última morada um cemitério de navios
onde são retalhados e o aço reciclado numa siderurgia faminta
acabarão nas lâminas das adagas e num qualquer fuzil fratricida
António Andante (Ó,Serôdia!)
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