cacho de uvas ao sol...

a inquietação do meu outono
é como um mar gelado
tremo a qualquer sobressalto
e me tira o sono
num profundo cansaço deito a cabeça
na almofada, e assim fico até de madrugada.
fiel à memória, sinto-me viajante
às raízes que fui perdendo num instante.
penso na morte, e também na vida
e nessa inquietação vou ficando adormecida
num delírio de descrença
não sou nada, nem de ninguém
só estou presa na saudade
que me leva sempre mais além.


além, onde a vida era despertar
e havia frenesim em mim
quando era cacho de uvas ao sol a amadurar
quando tinha asas de voar
e sonhos sem medida, nem fim!
entregava-me à paixão, sempre com nova ternura
e amor no desmesurado coração.
ergo-me contra o tempo
surge um fulgor entre meus dedos
ressuscito sonhos que ainda acalento
e sulcando a memória vou soltando medos.


natália nuno 
rosafogo
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