Escritas

MEUS AMIGOS

ar rahman burtugaliy
Meus amigos.
Nesta coisa
de escrever o que se pensa
que se escreve se se pensa
que escrever é o que sai
do pensamento que cai
em letra de vem e vai
ao sabor do encantamento
do que se sente demais
reconstruindo em momentos
de solidão ou tristeza,
de alegria e de certeza,
de emoção e de carinho,
ou de horror e lassidão,
de precisa confusão
de tudo o que é a vida,
às vezes sou como o urso!
Hiberno de rima e métrica
e em atitude mimética
confundo-me com a rua
passeio, montras e árvores,
cão que passa, dobro
esquinas,
torno-me monte e riacho,
olho as águas rio abaixo
conto estrelas (faz de conta
que às vezes sou uma delas)
e passeio no infinito.
Distraio-me. Em silêncio grito
contra o que não há que ser.
E depois, quando o sol nasce
mais quente em qualquer solstício
fora de tempo e de regras,
volto a mim e estico as pernas,
espreguiço o pensamento
e enceto novo alento
para fazer mais um pouco
daquilo que me dá prazer:
sem dizer, dizer de tudo,
mascarar tirando a máscara
pintar sem tinta nem telas,
liquefazer aguarelas que,
conformo posso e sinto,
uso como um exorcismo
ou só fé de bem fazer,
mas que algo há de ser,
de bom ou mau,
ou nem isso.
Mas se nos apetecer
sermos materialistas,
decidimos que escrever
é excreção do pensamento
contendo em si algum fim,
tal como a urina tem dentro
a meditação do rim.