Escritas

O assoalho do mar

teh_mariani
                        O assoalho do mar
                                                          (de minha autoria)
    De tantas gotas sedimentadas dentro de meu
    Peito alagando todas minhas veias e artérias,
    A tristeza transbordou-me.

 
    Foi um choro que afogou,
    Um choro que não podia ser parado ou enxugado.
    Era infindável.
    Era crônico.

    De tanto absorver para dentro de meu ser a
    Angústia que inundava o coração dos outros
    Tripulantes desse naufrágio,   
    De  tanto retirar desgosto de seus pulmões para
    Que pudessem respirar novamente,
    Afoguei-me.
    Afoguei-me em águas   tão profundas que nem a
    Luz em seu maior ímpeto de coragem arriscaria ir.

    De tanto tentar salvar, me matei.
    De tanto tentar curar, me adoeci.
    De tanto segurar as cordas, arrebentei-me.
    De tanto   tentar falar, silenciei-me.


    Depois de toda uma vida anunciando a verdade,
    Virei uma mentira.
    Depois de tantas vezes atraindo a luz e 
    Incentivando  o seu brilho,
    Apaguei-me.
    Nublei-me.

    (Choro inaudível)
    (Grito mudo)
    (Voz silente)
    (Lamentos inaudíveis)
    (Palavras silenciosas)

    Silêncio
    [...]

    Fim
    [...]


    Suspiro,
    Meus pulmões se enchem de ar.
    Meu sangue volta a correr.
    Meus olhos abrem-se.




    Estou no assoalho do mar de cinzas e consigo
    Respirar aqui embaixo.
    Daqui olho o navio naufragando sozinho e não
    Mais eu.

    O que passa? Sinto-me viva, mas há pouco estava
    Morta.

    Virei-me e então vi:
    A indescritível,
    Magnífica
    E mais esplêndida luz que tinha me dado fôlego.

    Com desapressados passos, me puxava pelas
    Mãos e eu podia em paz andar sob as águas
    Profundas.

    Equivoquei-me,
    A luz chegara ali.
    A luz genuína.

    O Dono dos Sete mares não se confunde,
    Não se engana,
    Não demora.
    Ele vê,
    Ele permitiu que eu afundasse.
    Ele sabia onde que as violetas correntezas
    levariam-me.

    No entanto, a inconformada alma continuava a
    Bombardear-me de incansáveis questionamentos
    Ao Mestre das águas: Por que demorastes tanto a vir?
    Se tinhas controle de tudo,
    Por que não mostrastes antes?

    Por que desse infinito Universo fizestes eu,
    Um minúsculo ser enfrentar tais tenebrosas
    Tempestades? Não poderia ser qualquer outro
    desses sete bilhões e meio de viventes?

    Disse então eu para minha alma através de uma
    Voz inconfundível que soprava no meu interior:

    —Silêncio! O Criador da vida está a trabalhar.

    Aquieta-te alma questionadora,
    Impaciente,
    Desacreditada.

    Não é porque pensas ter passado por tudo nessa
    Vida que conheces a verdade.
    Aquieta-te que é aqui no mar profundo que vai
    Curar-te.
    Aquieta-te que é aqui que vai refazer-te.

    Descanse que o Bom marinheiro leva em
    Segurança todos os tripulantes do navio.
    Viagem cansativa e um longo percurso que
    Passará com o Ilustre Capitão, mas porto seguro
    Ele não te deixará faltar.

    Recomponha-te que a profundidade que estás,
    efêmera é.
    Passageiro é o silêncio, mas fiel companheiro do
    Recomeço.

    Começa-te então a ver minh’alma que o Criador
    te Fará nova.
    Por aqui também conhecerás sobreviventes de
    outros naufrágios.
    Por aqui a tristeza não mais residirá,
    A esperança, contudo, fará daqui sua eterna
    Morada.

    Por aqui, cicatrizes não se abrirão.
    Novas poderão ser feitas, pois doloroso é
    o processo.
    Porém, acalma-te aí que elas serão apenas
    Lembranças do extenso caminho.

    Acalma-te que aqui nas profundezas pode ser que
    Volte a estar, mas a luz do Grande Marinheiro
    Sempre te acompanhará.

    Então somente descansa-te,
    Cura-te porque ainda ajudarás muitos navios a não
    naufragarem.