Escritas

À MESA DO CAFÉ

ar rahman burtugaliy
À mesa do café,
óculos na testa,
hesita o poeta
sobre o que escrever.

Rimas, não há.
Assunto, é o que falta.
Falar de quê?
Da malta que passeia no
jardim?
Das flores que crescem
em canteiro regado
assim, assim?

De guerras e desastres?
De sonhos, de quimeras?
Do sol que já se pôs?
Da noite bela?

De que falar?,
pensa o poeta,
enquanto ali ao lado
uma bica arrefece.

Se a mesa do café
ao menos desse
alguma inspiração...

Mas não!

Bruta e quadrada,
a mesa não diz nada.

E a cadeira?

De pernas empenadas,
balança cá e lá
de cada vez
que o poeta
cruza a perna.

À mesa do café,
o melhor, mesmo,
é estar-se na conversa.

E até pode ser que,
de repente,
a poesia
apareça.